Espaço Ameríndio

 PARA O INÍCIO DA CONVERSA

Cumprimento a todos vocês caros alunos e alunas, amigos professores e professoras, estimados pais e mães e a todos os presentes nesse evento festivo da FOIRN[1] 27 ANOS DE LUTA E CONQUISTA.

Esse ambiente especial e significativo da Casa de Danças, Casa Cerimonial e Ritual, Casa de Histórias de nossas Origens nos inspira muitas coisas, mas isso também depende dos contextos históricos pelos quais cada qual passou. Os mais velhos quando veem essa casa ficam extasiados, querem chorar, pois para eles essa Casa diz muita coisa e para outras pessoas menos. Para as gerações novas que conhecem pouco e até mesmo não têm contatos com as danças, rituais e cerimoniais, não significa nada.  

Para quem vivencia as histórias do Movimento Indígena do Rio Negro essa Casa em São Gabriel da Cachoeira representa os 27 anos de Luta e Conquistas. Esse é o Lugar da FOIRN, lugar importante dos povos indígenas. Aqui se discutem os nossos sonhos: políticas locais, políticas indígenas (autonomia, autodeterminação...), políticas públicas, políticas educacionais, políticas da saúde indígena, projetos de desenvolvimento e projetos de auto-sustentabilidade.  

Essa casa representa diversas organizações indígenas da nossa região do Rio Negro. É Casa de todos os povos indígenas de nossa região. Ela carrega nossas histórias. Ela acolhe todos os povos indígenas da nossa região e outros não indígenas que chegam aqui.    

Essa Casa representa grande Movimento Indígena e representa os povos Indígenas em continuo Movimento.

  1. IDENTIDADE E DIFERENÇA CULTURAL

A organização do evento convidou-me para falar desse tema com o público participante com os objetivos de fortalecer a identidade e promover a valorização; fortalecer e promover a continuidade das culturas, tradições e saberes.

Agora estou aqui. Vejo-as pessoas de diversas idades, de diferentes origens, com suas histórias, com suas experiências pessoais de vida, de diferentes lugares, das aldeias, das cidades.  

Ainda eu não disse quem sou eu? Algumas pessoas me conhecem. Vocês me veem uma única pessoa! Eu nasci numa pequena comunidade chamada Nª Srª da Assunção, situada ao lado de um lindo igarapé Onça, afluente do rio Tiquié, distrito de Pari-Cachoeira, município de São Gabriel da Cachoeira – Amazonas/Brasil.

Eu nasci no dia 30 de junho de 1961, mas nove meses antes meu pai e minha mãe me fizeram. Meu pai é um Tuyuka e minha mãe Tukana[2]. Na tradição do meu povo me ensinaram que quando nós temos pai Tuyuka, o filho é Tuyuka. Por isso, eu sou Tuyuka. Apesar dessa verdade algumas vezes eu brinco dizendo que eu sou Tuyukano, porque sou filho de duas culturas: Tuyuka e Tukano.

Aqui está a minha primeira compreensão da identidade cultural: eu sou Tuyuka, vivo como Tuyuka e morrerei Tuyuka. É nossa pertença étnica, pertença ao um povo.

Dessa maneira nós vamos definindo nossa identidade cultural diferenciando-se de outras identidades culturais. Por isso, é importante entender que quando nós estamos falando da identidade cultural estamos falando das diferenças culturais.De modo mais simples significa dizer que eu sou diferente de vocês e vocês são diferentes de mim! Isso é muito bom! Nunca seremos iguais, mesmo sendo de um mesmo povo somos todos diferentes.

As nossas culturas são construídas pelas pessoas humanas. Por isso, as riquezas culturais estão bem ligadas aos contextos culturais. Em outras épocas históricas elas não são mais vividas por outras gerações. Em outras épocas elas merecem atenção e passam pelos processos de valorização, fortalecimento, revitalização por gerações posteriores. São essas políticas que nós vivemos a partir da fundação da FOIRN/1987, e aprovação da Constituição Federal/1988. Dentro desse contexto que vou colocar o tema da identidade cultural.

  1. IDENTIDADES CULTURAIS A PARTIR DA MINHA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Eu já passei dos cinquenta anos. Nesse ano vou completar cinquenta e três anos (53). Muitas pessoas me deixam muito feliz, dizendo: você está jovem! Outro dia alguém me disse: você está cada vez mais jovem! Eu fiquei feliz! Eu quero acreditar que isso seja uma verdade. Também não faltam quem diz: padre, o senhor está velhinho! Isso eu acredito! Outras pessoas me dizem: padre, o senhor está bonito! Eu respondo: Ah, isso é verdade!

Eu trabalho com o povo Yanomami desde o ano de 2010 e do ano passado para cá, os jovens Yanomami me perguntam: padre, quando é que o senhor vai morrer para nós fazer uma grande festa, convidar seus parentes Tuyuka para cá, tomar suas cinzas com mingau de banana? Eu disse: ainda eu não quero morrer! Quero viver mais um pouco!

Essa pode ser outra compreensão da identidade cultural, identificarmo-nos com outro povo e querer ser como tal povo e ser considerado como membro daquele povo. Os Yanomami querem fazer uma festa e tomar minhas cinzas com mingau, pois eles viram que eu participo das festas com eles, eles me pintam todo por inteiro em todas as festas, eu danço com eles, tomo mingau dos falecidos com eles. Então eles pensam que eu sou um deles. É importante eu dizer para vocês que eu posso aprender todos os costumes de outros povos indígenas e não indígenas, mas a minha consciência vai continuamente dizer que eu sou Tuyuka.

Eu sou um Tuyuka andarilho, isto é, ando por muitos lugares, eu não estou há muito tempo na aldeia Tuyuka. Vejam só as minhas histórias: até o ano de 1969 eu vivi anos felizes na aldeia onde eu nasci, andava pelado, sem me preocupar com as roupas. Era normal naqueles contextos históricos. Eu era um menino livre. Com os meus colegas brincava. Corríamos no pátio da aldeia, disputávamos corridas, nadávamos nas cachoeiras; de vez em quando brigávamos, também. Éramos corrigidos pelos pais e os adultos.

Agora estamos vivendo outros contextos históricos. Hoje não é mais assim como era na minha época de criança. Hoje as criancinhas já usam cuequinhas, calcinhas. Os pais e as mães têm outras mentalidades.

Eu vivi com os meus pais: aprendi a falar a língua do meu povo, vivi com minha mãe e vi como ela fazia beiju, farinha, quinhapira, como cozinhava peixe, carne; como preparava mingau; como ela nos levava ao banho; acompanhava minha mãe na roça; como limpava a roça, arrancava a mandioca, limpava, ralava... Quando criei mais forças ajudava a carregar mandioca com aturá... Acompanhava minha mãe na roça, raspava a mandioca, carregava mandioca com aturá. Minha mãe me ensinou fazer beiju, farinha, preparar quinhapira, acordar bem cedo, etc. Quando eu não conseguia fazer como minha mãe ensinava e como ela queria eu apanhava e chorava.

Convivi com meu pai e vi como ele preparava a roça, vi como ele preparava caniço, preparava os anzóis, pescava, caçava... Aprendi a pescar os peixes do igarapé, não sei pescar no rio grande, morro de medo do tamanho do rio. Quando meu pai me levava à pescaria não aguentava de sono e dormia. Nas paradas gostava de comer peixe assado com pimenta, sal e beiju. Depois tomava um gostoso chibé. Eu ia para caça com o meu pai para matar cutia, paca, tucano, macaco... Nossos cachorros caçadores nos ajudaram muito, mesmo assim no dia que não encontravam nada, eles apanhavam do meu pai.

Quando era adolescente e jovem ajudei a fazer roça ao meu pai... Quando minha preparava caxiri também ajudava, mastigava o beiju torradinho, tomava o caxiri doce. Presenciava meu pai fazendo discursos tradicionais de danças, vi meu avô cantando as músicas tradicionais, via meus parentes tocando e dançando cariço, tc. Vi as senhoras oferecendo caxiri e cantando hãde-hãde nikasamoba! Mas eu não fiz essas coisas porque era muito jovem e meus pais mesmos me diziam: essas tradições você vai começar praticar quando parar de estudar. Naquelas épocas não existiam escolas indígenas como nos tempos atuais que ensinam esses temas nas salas de aula e fora delas. Era outro tempo.

Assim é que nós vamos construindo a nossa identidade cultural. Aprendendo modos de viver de nossos parentes que determinam nossa pertença a um povo. Para quem nasceu e viveu numa aldeia do passado a construção da identidade cultural está bem ligada ao aprender e viver os estilos de vida das pessoas vivem ali: tipos de jovens que existem ali, tipos de casais, tipos de lideranças, tipos de dançarinos, dançarinas, cantores, cantoras, caçadores, pescadores, fazedoras de caxiri, etc. Até  aos meus dezoito anos (1979) eu conhecia somente a vida de nossa aldeia e as aldeias vizinhas, como São Domingos, São Paulo, Ninho de Abelha e Pari-Cachoeira. O meu conhecimento do mundo chegava até ali. Eu fui educado para entender aquelas pessoas.

  1. MINHAS HISTÓRIAS E MINHAS IDENTIDADES A PARTIR DAS ESCOLAS

Um dia do ano de 1970 meu pai me disse: meu filho você vai estudar! Levou-me no colégio de Pari-Cachoeira, fiquei no internato. Comecei a usar roupas, às vezes não sabia nem abotoar camisa... Não sabia nem armar rede para dormir, eu era pequeno e não cresci muito como vocês estão me vendo. Tinha que falar outra língua, deixei de falar a língua Tuyuka e comecei a falar a língua Tukano e algumas noções da língua portuguesa.  Ali estudei até concluir a 8ª série no ano de 1979.

Na escola eu conheci muitos estudantes, meninos e meninas de povos diferentes. Aprendi outros conhecimentos, outros costumes, escrever, ler, cantar, jogar bola, trabalhar... Mas eu também sonhava ser uma personalidade de estilo não indígena: ser professor, ser padre, ser soldado... Por que isso? Os conhecimentos de outras culturas nos motivam a pensar diferente: ser aviador, porque nós víamos aviões (Douglas, Catalina e Búfalo) que chegavam. Imaginem vocês, eu tão pequenino querendo ser um aviador. Eu sou medroso das alturas. Imaginem vocês eu pulando de paraquedas chegaria morto no solo. Mas sonhava em tudo isso!

As gerações de pessoas de hoje possuem seus próprios sonhos. Não dá para proibir de terem sonhos. Eu trabalho com o povo Yanomami do Rio Marauiá, no município de Santa Isabel do Rio Negro. Os Yanomami continuamente vão à cidade, tem acesso aos bens que antes eles não possuíam: recebem bolsa família, aposentadoria, agentes de saúde e os professores recebem salários, compram motores rabetas, botes de alumínio; compram celulares para ouvir música, etc. Algumas décadas a FUNAI não os deixava sair de sua área. Penso que nos tempos atuais se a FUNAI assumir a mesma política de proibição vão apanhar dos Yanomami. Eles são bravos.

Do ano passado para cá muitos Yanomami começaram a pintar os cabelos. Final do ano passado eu fui passar natal e ano novo com os meus familiares em Pari-Cachoeira. Quando eu retornei em fevereiro encontrei todos os jovens loiros e crianças também.  Os estilos de cortes de cabelos são: do estilo do jogador Neymar e estilo moicano dos filmes que eles compram e assistem nos seus DVD´s portáteis.

Essa é a outra compreensão da identidade cultural. Querer assumir as identidades das personalidades das histórias que são apresentados a nós e ou que nós nos identificamos. Os estilos que menos nós imitamos é o estilo índio. Ninguém que ser índio, ninguém quer aparecer índio, nem pensar ser índio. É muito interessante isso!

Eu sei que vocês são estudantes dos tempos atuais. Possuem sonhos novos. Muitas vezes nós mais velhos sonhamos outra coisa para vocês, mas vossos sonhos não se identificam com os nossos sonhos: falar as línguas indígenas, comer beiju, comer maniwaras, comer mujeca feita com japurá, com umari; comer flor de pupunha... Muitos jovens não querem nem saber disso. Eles querem saber de comer salgadinhos, pizzas, hamburger, etc.

Vejam só a minha história e dos meus contemporâneos da década de 1970. Eu sonhava até sendo um jogador da seleção brasileira de futebol, ser famoso como Pelé. Quando nós fazíamos gols nós dizíamos: sou Pelé! Quando identificamos com alguma personalidade nós queremos ser igual a ele, fazer o jeito dele, etc. Eu não saberia dizer agora se nós queríamos ser também Negro como Pelé?  Se querendo ser Pelé estaríamos negando o nosso ser Tuyuka, Tukano, Desano...?  São realidades interessantes que temos também nos nossos dias. Precisamos estar refletindo sobre o que acontece conosco.

Novamente conto sobre os Yanomami. Alguns deles vêm comigo e dizem: padre, eu não sou mais Yanomami, sou “branco”, quero viver na cidade, quero estudar na cidade, quero casar com mulher “branca”... Quando têm festas yanomami alguns não querem se pintar, dizendo: isso para os índios, etc.

É outra compreensão da identidade cultural. As culturas mais fortes influenciam fortemente nas nossas escolhas e nas nossas histórias, nos levam a negar as nossas culturas de origem. As nossas culturas indígenas parecem ser as mesmas há muitas décadas. Gostaríamos que os jovens gostassem das nossas culturas, das nossas danças, dos nossos ritmos, das nossas pinturas... Apesar disso, tais tradições não são bastante atraentes. Mesmo em algumas escolas indígenas quando tem festas rituais, quase sempre acabam em forró! São realidades mais envolventes.

Do ano de 1980-1982 eu entrei no seminário, ou seja, fui estudar para ser padre. Viajei com um avião velho Catalina de Pari-Cachoeira a Manaus. Eu levei a mala mais moderna, mala de madeira que eu mesmo havia feito na marcenaria de Pari-Cachoeira. Só que quando eu cheguei a Manaus e desci do avião com aquela mala todos ficaram me olhando como se dissessem: que coisa esquisita?

Em Pari-Cachoeira na aula de civilidade nos ensinavam como nós deveríamos comer de garfo e faca na cidade, pois nós já éramos civilizados. Em Manaus tentei fazer, mas os grãos de arroz não chegavam à minha boca! Foi querer pegar pedaço de frango assado com garfo e o pedaço pulou no prato do outro seminarista e ele não me devolveu mais.

Fiz o Ensino Médio no Colégio Dom Bosco de Manaus, no período de 1980-1982. Ali eu me vi uma pessoa totalmente diferente e outras pessoas eram totalmente diferentes de mim. Os outros me chamavam de INDIO e EU NÃO GOSTAVA DE SER CHAMADO DE ÍNDIO, discutia, xingava, brigava... Mas não adiantava nada. Em todos os lugares me chamavam de índio: na escola, nos jogos, na oração, nos passeios... Quando eu conseguia fazer coisas boas diziam: como é que esse índio conseguiu? Outros diziam: esse índio é inteligente! Quando eu não era bom em diversas coisas diziam: coitadinho do índio! O índio e incapaz mesmo! Eh, índio aqui não é aldeia não!

Essas realidades me faziam pensar: será que vou desistir? Queria desistir mesmo e dizia: vou voltar para minha aldeia, eu estou sofrendo à toa aqui! Outras vezes eu pensava: vou me esforçar ao máximo, eu tenho capacidade! Assim eu fui superando as dificuldades e conquistando diversas vitórias.

Em 1983 eu estava na cidade de São Carlos-SP, fazendo o noviciado, região fria, aprendi usar roupas de frio, no início o Tuyuka tinha vergonha de usar essas roupas. Naquela cidade eu ajudava numa escola uma vez por semana na aula de ensino religioso. Os pequenos alunos e alunas viviam chamando-me de índio. Essas crianças me despertaram outros interesses sobre minha cultura Tuyuka. Quando eu entrava na sala logo eles diziam: índio, conta histórias de índios para nós! Eu contava! Fiz sucessos com essa criançada e no último dia de aula, me deram presentes e algumas até choraram! Fiquei feliz e ao mesmo tempo triste vendo algumas crianças chorando. Eu pensei: NÃO É RUIM SER ÍNDIO! É BOM SER ÍNDIO![3]

Essa pode ser outra compreensão da identidade cultural. Os povos diferentes nos obrigam a fortalecer a nossa identidade cultural. A partir de fora nós começamos a aprofundar o nosso ser, o nosso eu original.

Do ano de 1984-1986 eu estava em Manaus, estudando Filosofia.  No ano de 1987 eu fui trabalhar no Colégio Dom Bosco de Porto Velho – RO. Em 1988 trabalhei em Pari-Cachoeira. Em 1989 comecei a estudar a Teologia em São Paulo; voltei a Manaus para continuar Teologia (1990-1992). Nesse período (1990-1992) que eu conheci o Movimento Indígena em Manaus. La funcionava a sede da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira). Conheci os indígenas que criaram a COIAB, Manoel Moura (Tukano), Pedro Tikuna. Depois conheci outros, como Orlando Melgueiro, Amarildo Machado. Com eles eu viajava para Assembleias fora de Manaus, conheci diversos indígenas do Brasil e todos contavam as mesmas histórias de sofrimento, de vergonha, de raiva, medo de dizer que é índio... Assim fiquei mais forte, aceitei meu ser índio... Eu vi que tinha que ACEITAR SER ÍNDIO, VIVER INDIO E MORRER INDIO.

No ano de 1993 eu estava em Guatemala – CA. Lá eu convivi com os indígenas da região alta Vera Paz, descendentes dos índios Maya. Vi outros modos de ser índio. Retornei no início de 1994 e tornei-me diácono. Alguns meses depois tornei-me padre. Já estava trabalhando em Iauareté (1994-1997), região que eu não conhecia antes. Ali que eu me envolvi mais nas culturas indígenas, estudávamos muito sobre as culturas indígenas, catequese indígena, celebrações de missas valorizando símbolos, danças, músicas indígenas, etc. Foi lá que também comecei a ser convidado para tocar e dançar cariço. Por isso, eu posso dizer que com o incentivo de quem sabe a pessoa aprende o que não aprendeu quando era criança.

Dos anos 1998-1999 eu fui fazer curso de Pós-Graduação em Teologia (Missiologia) em São Paulo. Em São Paulo eu fui muito bem aceito nas Comunidades onde eu celebrava missa. A cidade de São Paulo é cidade multicultural. Fui muito valorizado por ser indígena, de falar de temas indígenas. Muitas pessoas iam para missas só para ver índio celebrar missa, ouvir o que ele falava.

Dos anos de 2000-2003 trabalhei em Manaus. Um ano trabalhei com os estudantes de Filosofia e outros três anos fui pároco. Em todos esses anos eu estava bem ligado aos temas indígenas. Continuamente ajudava na Associação das Mulheres Indígenas do Rio Negro (AMARN).

No ano de 2004 voltei a trabalhar em Iauareté. No ano de 2005 até ano de 2006 voltei a estudar, dessa vez na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), no Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação Indígena, na cidade de Campo Grande/MS. Concluído o curso voltei a trabalhar em Iauareté, anos de 2007-2008, fui diretor e pároco. Visitei todas as comunidades. Eu vivi as culturas dos povos indígenas dessas regiões: baixo rio Uaupés, alto rio Uaupés, Japu e seus afluentes, rio Papuri e seus afluentes. Conhecendo os diversos povos indígenas aprendi muitas coisas.

  1. MINHAS HISTÓRIAS E COMUNIDADE VIDA NOVA – CURITIBA/PR - 2009

Eu vou fazer um destaque para esse ano de 2009. Para falar dele vou fazer um recuo histórico. É para falar da bebida alcoólica. Eu sou uma das pessoas que bebeu bebidas tradicionais indígenas, caxiri com diversas fermentações e outras bebidas alcoólicas.  Chegou um momento que foi acima do normal para um padre, exagero.

Então os meus irmãos padres me disseram para rever essa minha vida. Eu aceitei, resistindo bastante. Porque eu também sou alguém luta muito pelas culturas indígenas, riquezas culturais, danças, músicas, rituais...

Eu passei durante um ano na Comunidade Vida Novo. Estava cuidando de mim mesmo, do meu estilo de viver a minha vida, de construir novas histórias. Eu sei que as nossas culturas indígenas e não indígenas possuem suas bebidas alcoólicas e com outros nomes. Nós não conseguiremos eliminá-los das sociedades, pois elas são partes das histórias.

O que eu digo é que cada um de nós pode decidir como viver dentro dessas histórias. Vocês são sabedores que exageros de bebidas tradicionais, de bebidas alcoólicas e consumo de outras drogas estão destruindo muitas vidas, muitas famílias, muitas organizações. Também essas situações negativas mexem diretamente às nossas identidades indígenas. Muitos dizem: que os indígenas são bêbados, os índios não têm moral, não têm responsabilidades, são pés inchados, etc. Muitos jovens, adultos, homens e mulheres morrem devido a essas situações: afogamentos, assassinatos, enforcamentos... Dentro dessa realidade mal vista ninguém vai querer ser índio! Se ser índio merece toda essa carga negativa quem vai querer ser índio? Aqui a nossa identidade cultural é afetada. Mas muitos indígenas conseguem viver bem, sim.  Eu estou procurando viver de outro modo, de tal maneira que o álcool não ocupe o primeiro lugar nas minhas escolhas.

Atualmente eu levo com mais tranquilidade a minha vida. Quando alguém me chama de índio eu não fico mais bravo. Eu aceito ser indígena. Hoje eu procuro ser índio bom, ser pessoa boa, ser padre bom, ser bom profissional, de responsabilidade, de respeito, etc. Tenho muito a melhorar.

Eu digo para vocês que ser índio é muito bom. Graças ao meu ser TUYUKA eu aprendi muitos conhecimentos, conheci muitas pessoas, aprendi muitas coisas que eu não conhecia. Como eu disse acima eu aprendi a tocar e dançar cariço eu aprendi depois de ser padre, com outros povos indígenas de Iauareté. Depois os meus Tuyuka de Santa Cruz de Inambu me incentivaram. Assim quando eu vou com os meus parentes Tuyuka do rio Tiquié já participo bem. Não tenho vergonha, pois eu sei com outros que sabem melhor do que eu, vou aprender mais. Digo isso para dizer que nem tudo da nossa cultura indígena aprendemos quando somos crianças, adolescentes, jovens. Um dia quando temos oportunidades e ganhamos confiança de pessoas que nos querem bem nós aprendemos.  

  1. IDENTIDADES CULTURAIS DAS CRIANCAS, ADOLESCENTES E JOVENS  DOS TEMPOS ATUAIS

Muitas pessoas ainda nasceram, cresceram e viveram em suas comunidades do interior. Depois vieram morar na cidade bem cedo. Outras já nasceram na cidade ou nas sedes de distritos que já possuem climas de cidades.

De algumas décadas para cá as comunidades do interior também recebem outros benefícios e adquirem novas tecnologias, como: geradores de energia/luz, possuem escolas, aparelhagens de som, músicas antigas e de última geração. Muitos indígenas possuem aparelhos celulares para ouvirem músicas, tirar fotos. Assistem aos diversos programas de televisão. Diversos modelos de roupas chegam à nossa região.

Os indígenas atuais estão em outras épocas. O que eles menos pensam é viver no passado como viviam seus antepassados, dançar as músicas que dançavam no passado... Hoje surgem novas personalidades que as pessoas querem imitar, artistas de filmes, jogadores famosos que influenciam com seus modos de vestir, cortar cabelos...

Como povos indígenas nós não temos personalidades de destaque a ser seguidas, imitadas... Temos poucas danças e nem sempre atraem os jovens. Cariço, por exemplo, só dançam alguns pares, pares que sabem tocar, da mesma forma outras danças como Capiwaia. Essas danças mesmas parecem excluir quem não sabe. Se eles não podem dançar eles não irão participar.  Se todos dançassem teríamos que fazer muitos centros como esses. Teriam que ter escolas específicas de danças indígenas, com professores, homens e mulheres, ganhando salários também. Hoje em dia quando se fala dessas novas realidades está muito presente o dinheiro, pois sem dinheiro não podemos fazer quase nada. O ideal seria ensinar sem pedir pagamento, mas hoje está difícil. Se nós estamos falando de valorização de nossas riquezas culturais deveríamos fazer restaurantes apropriados e bem acolhedores para apresentar, vender e lucrar com as nossas comidas típicas. 

Na cidade vivemos num mundo de comunicação mais moderno, alguns deles, Facebook, WhatsApp e outros... Hoje o que menos se faz é conversar sobre nossas culturas indígenas, conversar com os pais, avós, conversar sobre os valores culturais indígenas. Hoje muitos jovens estão sentados nos LanHouse, olhos fixos nas telinhas de celulares. Muitas vezes não tem nem tempo para conversar diretamente com as pessoas, outras estão conversando, mas nem olham para a pessoa.

É verdade também que nesse mundo desafiador da comunicação que surgem novas iniciativas indígenas, caboclas... Fazer músicas com ritmos mais modernos nas suas próprias línguas indígenas, divulgar os acontecimentos da vida cotidiana como comidas típicas (quinhapira, mujeca...), pinturas corporais. Com destaque especial: são jovens que estão longe de suas famílias, em outras cidades que postam essas notícias. Eu não perco oportunidade de parabenizar essas pessoas, pois estão valorizando, fortalecendo e promovendo a cultura indígena. Eu também não perco oportunidade lançar temas indígenas, acontecimentos indígenas do meu trabalho. Eu tenho atualmente na minha lista de admiradores diretos, cerca de 1.088 pessoas. Quando eu lanço notícias imediatamente vêm comentários, parabenizando, complementando, etc.

A meu ver VIIVER A IDENTIDADE CULTURAL é valorizar as oportunidades que surgem: visitar nossas comunidades de origem, conversar com nossos avós, com os nossos pais, valorizar nossos modelos de trabalho, nossas comidas típicas, bebidas típicas (chibé, mingau, vinho de açaí, de pupunha, manicoera, mingau de banana, de goma), promover nossas artes, nossas danças, nossos rituais. Mas nós começamos a valorizar quando nós mesmos decidimos fazer, e não como algo forçado.

Por outra parte vejo que fortalecer nossa IDENTIDADE CULTURAL não significa ser todos iguais. Cada um de nós PERTENCE A UM O POVO ESPECÍFICO, porém, cada pessoa constrói diversos modos de ser no mundo atual. 

Nós nunca chegaremos a ser como eram os nossos antepassados. Seremos sempre diferentes, mas no nosso SANGUE e nas nossas VEIAS correrá continuamente o nosso SER INDIGENA.

O nosso exterior modificado por cada momento histórico não anulará a nossa IDENTIDADE CULTURAL. Sendo indígenas podemos atingir muitas metas que nós estabelecemos: ser professora (a), ser militar, ser secretários municipais, estaduais, ocupar cargos públicos, ser médicos, ser padre (em Sao Paulo me chamavam: Padre índio; Padre Tuyuka... Ser universitários, ser outras realidades que estão nos sonhos de cada pessoa.

FECHANDO A CONVERSA

Concluo dizendo:

Ser indígena é muito bom!

É ser pessoa especial e única no mundo.

Com a gente o mundo fica mais bonito.

O nosso carinho e amor deixam o mundo mais sorridente.

Nossos saberes e conhecimentos,

Nossas culturas enriquecem o mundo.

A FOIRN durante 27 anos está falando disso.

Homens e mulheres especiais, iluminadas,

Fortes, corajosas e vencedoras,

Lutaram pelos nossos povos.

Sonharam alto, pelo bem dos outros.

Continuamos fortalecendo nossas identidades culturais

E, nossas diferenças culturais.

Porém, juntos devemos vencer as forças negativas,

Que querem anular as nossas identidades e nossas diferenças.

Devemos ultrapassar os desafios de cada momento.

Entre tempos e contratempos,

Temos que continuar fortes.

Dia 30 de abril de 1987 é a data da nossa VIDA!

Começo da nova história!

Fortes nas nossas identidades

Aprendamos a interagir com as diferenças culturais,

A Família FOIRN é grande.

Seus filhos espalham-se por todos os espaços.

Nas comunidades de origem,

Nas diversas cidades do Brasil.

Independente donde estejamos vivendo,

Somos indígenas do mundo contemporâneo.

Amando nossas vidas, nossas culturas,

Nossas identidades, nossas diferenças!

 

Justino Sarmento Rezende, do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka. Padre Salesiano, possui formação acadêmica em Filosofia, Teologia e mestrado em Educação [Linha de Pesquisa: Diversidade Cultural e Educação Indígena; Área de concentração: Formação de Professores].


[1] Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, fundada no dia 30 de abril de 1987, em São Gabriel da Cachoeira.

[2] Meu pai: Eduardo Barbosa Rezende. Minha mãe: Luiza Sarmento Rezende.

[3] A ordem do pensamento é esse mesmo. Primeiro: Não é ruim ser índio! Essa expressão é para desconstruir a ideia de que com os estudos nós deixaríamos de sermos índios, por isso, nós não seríamos mais índios. Segundo: É bom ser índio! É o começo de nova construção de ser índio: aceitação da identidade cultural de origem.