Espaço Ameríndio

AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO RIO NEGRO
Escolhas, decisões e ações para construir a vida atual!
 

Pe. Justino Sarmento Rezende

 

Com imensa satisfação partilho com você o texto refletindo sobre a importância da autodeterminação dos povos indígenas do Rio Negro. Ele motivará nossas reflexões, discussões, diálogos, negociações, escolhas, decisões e estabelecimento de metas e ações a serem construídos durante o I SIMPÓSIO INTERNACIONAL DIÁLOGOS INTERCULTURAIS NA FRONTEIRA PANAMAZÔNICA


O artigo parte do princípio de que nossas vidas e histórias indígenas possuem diversos fundamentos que dão sustentabilidade às existências, vidas e histórias. Entre muitos fundamentos que cada um de nós poderia contribuir, eu aponto seis fundamentos: filosóficos, sociológicos, antropológicos, teológicos, pedagógicos e políticos.


Você que ouve [você que vai ler] a minha colocação perceberá que eu utilizo diversos conceitos originários dos saberes ocidentais. Todos nós que já passamos pelas escolas desde as séries iniciais até aos diferentes graus de estudos em que nós nos encontramos hoje aprendemos e utilizamos os instrumentos linguísticos ocidentais para expressar o que nós indígenas pensamos e fazemos. 


Apresento agora alguns conceitos que fundamentam nossas falas e dão sustentabilidade às vidas de nossos povos. Existem muitos outros fundamentos, porém aqui socializo alguns.


1º - FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS
Nós povos indígenas somos herdeiros de saberes construídos pelos nossos antepassados míticos; herdeiros de saberes construídos pelos nossos antepassados humanos nas inúmeras histórias; agora nós somos construtores de outros saberes.
Os antigos pensadores gregos diziam que os filósofos são considerados amigos da sabedoria.
Nossos antepassados e nós somos amigos das sabedorias, amigos dos conhecimentos, amigos do bem, amigos da vida, amigos do bem viver que tanto nós almejamos.
Nós já percebemos que as realidades estão mudando rapidamente. Não somente as pessoas, mas o mundo está mudando, o cosmo, o universo, as florestas, os rios e outras vidas estão mudando e exigindo de nós respostas e adequações a essas mudanças de épocas.
Os nossos sábios benzedores, cantantes, dançadores, pajés continuamente dizem: 
antigamente o mundo não era assim, era muito diferente; muitos admitem que antigamente nós indígenas não éramos assim e, hoje, somos bem diferentes. Nesses contextos nós precisamos de novos pensadores. Se não tivermos essas figuras pensantes nós vamos ser levados para quaisquer lugares, para horizontes sem pontos de chegadas, caminhos sem retorno. 
Muitos desses discursos entre os nossos sábios indígenas não são feitos apenas dentro de eventos grandes e públicos, mas são feitos nas conversas do dia a dia. No mês de junho desse ano [2011] estive no alto rio Tiquié e um de seus afluentes. Na comunidade Puerto Colômbia, lugar dos meus irmãos maiores, os meus colegas de viagem ficaram conversando com os donos da casa ritual até uma hora da manhã, numa casa semi-iluminada, falando sério e outras vezes contando piadas. Lá são produzidos bons discursos, boas reflexões sobre as mudanças de épocas e o que nós homens deveríamos fazer no mundo atual. Eles se lembravam de homens do passado, falavam de nós que estudamos nas escolas e universidades; falavam deles mesmos, viventes desses lugares onde florescem diversos saberes. Na roça enquanto cortam folhas de ipadu, folha por folha, enchendo o pequeno aturá, sentados de cócoras, exercitam sua paciência, meditam sobre o mundo que está ai e para onde vai a humanidade, para onde os homens e mulheres atuais pensar em caminhar e construir suas histórias.
 

Esses pensamentos florescem quando se sentam nas casas rituais, comendo ipadu, fumando cigarro, passando um para o outro esses elementos geradores dos saberes. Os saberes novos surgem entre falas sérias intercaladas com gostosas piadas. As seriedades, brincadeiras, gargalhadas, apelidos são ingredientes que dão bom sabor aos ambientes dos saberes. Os sábios não ficam agredindo verbalmente nem por gestos um ao outro como nós muitas vezes tendemos fazer. 


Depois de Puerto Colômbia fui para Puerto Loro, entre os meus primos-cunhados, povo Barasano. Lá existem essas mesmas tradições. Lá os meus companheiros de viagem ficaram até as quatro da manhã conversando, sobre as festas, sobre bebida kapi, sobre adornos, danças, sobre as figuras tradicionais religiosas. Lá também era um clima de boas conversas, alegrias, gargalhadas, piadas, apelidos... Essa é mais uma lição para ser seguida de nossos lugares mais distantes do que grandes centros de discussões como o nosso aqui.


Olhando para minha própria pessoa a partir dos olhares daqueles lugares e daquelas pessoas que ali estão nós que discutimos sobre os saberes indígenas, nossas culturas e sobre as figuras de nossos sábios estamos muito distantes fisicamente e distantes de seus conhecimentos. Os conteúdos de nossos discursos e o que se vive naqueles lugares de nossos sábios são bem diferentes. 


Partilho a minha recente experiência. Nessa viagem eu cheguei nesses lugares com uma mentalidade bem ocidental. Chegando eu queria logo descansar e dormir. Mas os bons costumes dos sábios moradores desses lugares seguem suas próprias disciplinas: conversar com os visitantes e ouvir as histórias dos visitantes; contar as histórias de seu lugar para os visitantes; a partir dessa troca de informações constroem outras reflexões, outras perspectivas históricas etc. Dormindo cedo eu estava contrariando as tradições dos meus parentes sábios tuyuka. Entre um sono e outro, acompanhava as conversas. Eles falavam de muitos temas. Eu que estava dormindo enquanto eles produziam os saberes sou uma pessoa que defende as culturas indígenas, fala e escreve sobre elas continuamente, saboreia seus saberes. Apesar desses ideais eu não fui capaz de ficar sentado tempo inteiro, para comer ipadu, fumar o cigarro, responder as colocações, partilhar meus conhecimentos com eles. Eu não fui capaz de ficar dando gargalhadas noturnas, não fui capaz de dar apelidos. Um dos filhos do sábio tuyuka disse para mim: padre chama o meu pai sempre pelo apelido se não for assim ele não gosta... Esses sábios desmontam aquilo que nós consideramos saberes, desconstroem nossas disciplinas, nossas seriedades. Eles estão dizendo para nós que coisas boas e falas boas devem ser feitas com alegria, gargalhada, sorrisos. É um desafio para nós chegar a esse nível de harmonia, equilíbrio e sabedoria.


Eu penso que todos nós indígenas, principalmente quem está muito tempo fora, antes de falar aqui deveria passar um tempo com estes sábios para saber um pouco mais as sabedorias de nossas origens, sentir-se pequeno dentro da grandeza de casas rituais e todos seus simbolismos e materialidades.


2º FUNDAMENTOS SOCIOLÓGICOS
As diversidades culturais são riquezas e patrimônios nossas, de nossa região e do mundo.


Nossa pertença aos povos indígenas é garantia de nossas identidades e nossas diferenças. Identidades ajudam-nos saber quem somos nós, como estamos nos construindo e como estamos construindo nossas histórias. Diferenças nos ajudam a reconhecer que nós somos nós porque existem os outros, com seus saberes, conhecimentos... Deste modo para nós indígenas, estar pisando na nossa terra aqui e agora é garantia de nossas vidas, histórias, trabalhos, projetos, ações. Nós estamos na nossa terra, na nossa casa, na casa de surgimentos como dizem os nossos sábios.


Não dá para temer quando estamos em nossa casa e em nossa terra. Apesar disso, nós devemos evitar criar atitudes fundamentalistas, que nos levem a pensar que somente nós indígenas temos verdades sobre nós mesmos, sobre o que queremos e para onde queremos caminhar. É muito importante aprender a olhar nossas culturas, nossos trabalhos, nossas histórias e nossos projetos de vida com os olhares dos outros. Os pesquisadores, historiadores e outros profissionais com suas análises científicas devem saber quais são as nossas tendências de construção de histórias atuais. Eles devem dizer para nós, sem medo o que pensam de nós e de nossos projetos para que nós possamos enxergar nossas realidades com outros olhares. Muitas vezes nós indígenas não conseguimos enxergar tudo sobre nós e os nossos destinos. Nós estamos vivendo em mudanças de tempos e nelas todos nós devemos procurar construir diferentemente nossas vidas, histórias e projetos de vida, interagindo com pluralidade de culturas, línguas, costumes, saberes, projetos, gêneros...

Há algum tempo nós vemos o surgimento da figura feminina nos espaços sociais, nas organizações e associações indígenas, na educação escolar, na política, nos espaços eclesiais, nos setores burocráticos... Hoje nós brasileiros temos uma presidenta. Dias atrás eu estive assistindo um noticiário onde noticiaram que a nossa presidenta é a terceira mulher mais poderosa no mundo. Quem sabe, no nosso município de São Gabriel da Cachoeira poderemos ter uma prefeita. Não vai demorar muito tempo. Eles se assumem diversas responsabilidades e muito bem. Uma mulher sabe cuidar da casa, arruma a casa, cuida dos filhos; prevê e pressente as necessidades dos filhos. Se elas assumirem essas qualidades e transferirem para o campo da administração pública não tenhamos dúvidas de que
elas vão arrumar a casa do município e de distritos.


Os homens que desde o início de nossas histórias indígenas foram figuras políticas reconhecidas, em contextos atuais não estão se dando bem com os modelos de lideranças que precisamos hoje. A prova disso é que homens com o poder na mão estão entrando numa fase histórica bem difícil, o de serem desacreditados pela população. Nós sabemos quais são as causas: defeitos de caráter [nós não somos bons políticos; sem diálogo interétnicos, mentimos, não assumimos responsavelmente os trabalhos], dependência de bebidas alcoólicas está destruindo nossas vontades de trabalhar bem e estamos perdendo o domínio sobre nossas vidas; outras drogas atingem mais
cedo nossos parentes; temos muitas dificuldades de gerenciar nossos projetos e os bens púbicos. 

Outra tendência real e forte é acesso de muitas pessoas aos cursos universitários. E, nós estamos nesse meio. Veja por exemplo, no mês de julho eu passei por esta cidade e vi centenas de professores e professoras nos cursos superiores. Eu fiquei admirado e ao mesmo um pouco assustado com as nossas políticas. Enquanto nós promovemos discussões sobre como vamos organizar os programas de cursos universitários, que modelo de ensino superior vamos querer construir, outros nossos parentes implantam diversos cursos universitários. Nós não estamos tendo políticas indígenas.


Eu penso que independente donde estejamos nós temos que ter nossas políticas indígenas, no campo da administração público, nas organizações indígenas, nas escolas, na Igreja, etc. Precisamos repensar nossas próprias histórias, pois se não for assim, muitos que entram na política e ocupam cargos públicos vão pensar e agir como se não fossem indígenas, sem políticas indígenas. Meu sonho é que o fio condutor ideológico para nós indígenas deve ser políticas indígenas e com estas políticas que nós vamos enriquecer as nossas sociedades, sociedade brasileira e sociedade mundial. 


Nós estamos vivendo nas sociedades plurais, complexas. Nós não vamos nos matar por causa dessas múltiplas reações e ações, por causa de complexas posturas pessoais e institucionais. Aqui mesmo encontramos um desafio de suma importância saber construir múltiplos projetos, múltiplas respostas, múltiplas soluções para o mundo que está mudando e as pessoas que correm atrás. 

3º FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS
Esses fundamentos garantem-nos como povos específicos e diferenciados. Nós e outros; outros e nós estamos construindo nossas histórias e nossas vidas, desde os nossos antepassados seresdivinos-espíritos até chegarmos à nossa humanização, através de específicos processos de construção histórica assumidos por cada povo.


Por causa desses distanciamentos e proximidades com os nossos ancestrais e antepassados nós temos tantas riquezas semelhantes e diferentes. Para nós indígenas, hoje, não nos basta perceber que somos diferentes, mas precisamos nos apossar dos processos de produção de saberes que podem nos ajudar a viver bem como povos neste mundo atual, tão diferente do mundo em que os nossos antepassados construíram suas histórias.


Os processos de produção de saberes acontecem através da construção e desconstrução de saberes diversos tradicionais, modernos, pós-modernos etc. O processo de produção de saberes acontece através de contatos com outras culturas, outros saberes, línguas, disputas, projetos e ações.

Nós e outros, nossos saberes e saberes dos outros, nossos projetos de vida e projetos de vida dos outros, atualmente interagem continuamente.

Quando eu disse acima que nós estamos em nossa terra, nossa casa, eu não estou pensando para o fechamento dentro de nossas culturas. Estou pensando na utilização e construção de capacidades de aprender responsavelmente diversos saberes e conhecimentos; dialogar, refletir, discutir, negociar, aceitar os diversos saberes que podem nos ajudar na construção de histórias equilibradas, vidas melhores, e gere o bem viver das pessoas, das florestas, das águas etc.


Também devemos saber não aceitar conhecimentos que não nos faria bem. Hoje maioria de nós conhece muito mais sobre nós indígenas. Conhecemos também a vida de não-indígenas e suas histórias. Tanto indígenas e não-indígenas possuem suas qualidades, capacidades, etc. Mas nós sabemos também que os indígenas como os não-indígenas possuem suas maldades. 


Nós indígenas atuais nós nos afirmamos como tais porque temos critérios de pertencimentos fortes aos nossos povos. Mas quando nós entramos no mundo das ideias percebemos que muitas ideias são de outros povos indígenas e não-indígenas. Percebemos que nós indígenas temos mais ideias de não-indígenas quando se trata de bem estar material, dinheiro, estudos, lazer, realização em geral.


O movimento inverso é inexistente, isto é, os não-indígenas não pensam em levar a vida do índio, embora alguns que passam por aqui apresentam um entusiasmo passageiro de estabelecer moradia aqui. Dessas realidades é que surgem indígenas com ideais novos, criando outras necessidades, outras trajetórias de vida, outras conquistas, derrotas... As antropologias tradicionais estão tendo dificuldades para acompanhar os ritmos de vida dos indígenas atuais, principalmente, aqueles que vivem em sedes de distritos, sedes dos municípios, nas cidades etc. Nas cidades constroem-se outras redes sociais, outras aldeias, outros sítios [sits/nets].


Existem outros alucinógenos que anestesiam e enfraquecem a vontade de viver bem: bebida alcoólica, a cola de sapateiro, cocaína, maconha... Esses efeitos fortes e destrutivos estão gerando homens e mulheres totalmente diferentes. Esses homens e essas mulheres, muitas vezes, não conseguem enxergar a vida de maneira mais positiva; eles passam por momentos imediatos de loucura, falsa alegria, ilusão e alguns por transtornos mentais e comportamentais, etc. Que projetos de vida e de trabalho são pensados para estes jovens, suas famílias e comunidades? Como os programas de ensino superior que estamos construindo vão ajudar na vida das pessoas? Sabemos que todos esses programas de cursos universitários vão gerar outras necessidades, outras buscas, outros deslocamentos... Como vamos diminuir as ansiedades e inquietações destas gerações?


4º FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS
Nós povos indígenas temos raízes de nossas vidas nos seres divinos. Existem pensamentos e práticas teológicas próprias de cada povo indígena. Cada povo indígena possui centenas de espiritualidades que sustentam suas vidas, suas histórias, seus projetos de vida, seus trabalhos, suas festas. Existem rituais, cerimoniais, disciplinas, dietas alimentares, etc. Estas realidades parecem-nos como mortas e inexistentes. A meu ver estão muito bem vivas.

Muitas vezes eu fico suspeitando de nós mesmos, quando continuamos dizendo que as nossas culturas não existem mais. Será que não estamos justificando nossa pouca vontade de correr atrás dos conhecimentos, de entrar no mundo mais profundo de nossas origens? Eu disse acima que existem espaços sociais favoráveis para aprender tais
conhecimentos. 

 Falando sobre teologias indígenas, certo professor (José Ribamar Bessa Freire) disse-me: um campo a ser assumido prá valer por vocês Tuyuka é campo da teologia tuyuka; assim como vocês afirmam para vocês e para o mundo: essa é a nossa pedagogia tuyuka; vocês devem dizer para vocês e para mundo: essa é a teologia tuyuka.

Eu entendi que é campo importante mesmo. Alguns já estão dentro e muitos outros ainda teremos que entrar. Lá estão nossos teólogos, espiritualistas, os que meditam, refletem, os que benzem, os que curam, os que dançam, fazem discursos rituais, cerimoniais... Eles falam das histórias de vida, histórias das vitórias, das superações e ultrapassagens dos perigos, dos inimigos. Eles cantam sobre as vidas, sobre as histórias! Ritualizam as nossas histórias. Através dessas cerimônias e rituais acontecem as ações preventivas, curativas de seres divinos que os nossos antepassados depositaram suas vidas, suas histórias e seus projetos de vida.


As nossas espiritualidades indígenas hoje se encontram com outras espiritualidades de origem cristã e não-cristãs. Estas também influenciam muito na construção das vidas e histórias dos povos indígenas atuais. E, nós também estamos dentro dessas histórias. Talvez tenha alguém que possa dizer que é um daqueles que não acredita em nada e em ninguém, mas com certeza acredita em si mesmo, na sua história, na sua capacidade. Também são modos superiores a nós que nos conduzem para algo além de nós mesmos: nossos ideais, crenças, apostas etc.


5º FUNDAMENTOS PEDAGÓGICOS
Todos os povos indígenas sabem como conduzir a educação de seus filhos e filhas, netos e netas. Eles construíram modelos próprios, conteúdos, maneiras próprias de transmissão de saberes e colocar em prática tais conhecimentos para o benefício das pessoas, comunidades e histórias.


O mundo, as pessoas, suas exigências e necessidades eram outras. Os educadores e os espaços educativos eram próprios. As comunidades eram pequenas e todos tinham controle social sobre todos.


De algumas décadas para cá nós conhecemos as escolas. Nesses espaços nós aprendemos muitos saberes e esquecemos uns tantos. Conhecemos outros tipos de educadores. Conhecemos outras exigências, disciplinas. E, já nos acostumamos muito com as escolas. Queremos ter escolas independentes de qual modelo nós decidamos construir. Acostumamos com esses modelos há muito tempo.


No início do processo da escolarização dizemos que fomos forçados, obrigados... Hoje não é diferente. Os contatos com as escolas, igrejas, com os povos não-indígenas, com outras ideias, contatos com as cidades foram revolucionando a nossa educação indígena. Ela é existente porque é feita por nós indígenas, mas nem tudo o que fazemos é indígena. Algumas crianças de hoje já nem falam mais a línguas indígenas, pois a televisão, os aparelhos de sons que tocam músicas, aparelhos de DVDs que mostram os filmes e músicas influenciam fortemente na construção de outras visões sobre o mundo e as pessoas. Já estamos dentro da era da internet, do Orkut, de Messenger, Facebook, Badoo, etc. Nas sedes de municípios os jovens usam celulares que tocam músicas, ouvem pondo fone de ouvido, da mesma forma no interior alguns levam MP3,4... etc. Muitos ouvintes de músicas desses aparelhos tornam-se surdos para os outros. Deixam qualquer pessoa ficar gritando para ver se lhe ouvem. Tais realidades entram nas casas e nas escolas. Estamos vivendo numa liberdade camuflada que nos aprisiona e nos isola dos outros. Mas também essa liberdade nos lança para bem distante facilitando a interação com outras pessoas, inclusive pessoas e realidades virtuais. Como educar nesses contextos atuais virtuais?


Maioria das necessidades origina-se do mundo globalizado, não somente geográfico, mas de ideais, de necessidades, fracassos, sofrimentos, ilusões etc. Não estaríamos nós precisando de profissionais específicos e capacitados para acompanhar dentro dessas realidades? Já ultrapassamos muito tempo atrás com as nossas tradições indígenas onde todos eram responsáveis pela educação dos membros da comunidade. Hoje é cada um por si. Mesmo nas comunidades do interior ninguém se mete na educação dos filhos dos outros.


Hoje nós temos muitos indígenas professores e professoras nas cidades e nas comunidades do interior. Também estes apresentam seus inúmeros desafios: pedagógicos, didáticos, econômicos, familiares... Vida mole não vai existir nunca e para ninguém. Principalmente no campo educacional que é um campo existencial e necessário, desde o seio familiar, nos espaços escolares, universidades e no convívio social. Nós teremos que refletir e decidir como devemos construir outras maneiras de viver a vida e histórias para nós mesmos e para nossas juventudes. Como vamos ajudar as pessoas para construção do bem viver, que é um assunto do momento atual, assunto da moda.

Temos muitas coisas para pensar, refletir, planejar e trabalhar.


6º FUNDAMENTOS POLÍTICOS
Cada povo indígena construiu políticas próprias: modos de organização social; organização econômica; alianças entre diferentes povos etc. Cada povo organiza para morar em determinadas regiões geográficas. Também essas formas eram reconstruídas ao longo do tempo. Foram surgindo novas lideranças e novas demandas sociais exigiram outros modos de se organizarem. 


Nós povos indígenas estamos organizados por grupos familiares e eles facilitam uma convivência respeitosa entre irmãos maiores e menores, primeiros e últimos. Chefes e servos. A compreensão desses modos de organização social é de muita importância para nós. A compreensão dessa organização fortalece a aceitação do outro como nosso irmão, maior, menor, servo. A tarefa dos irmãos maiores é zelar, proteger e dinamizar a vida de seus irmãos menores. 


A construção de nossas histórias indígenas, construção de políticas específicas, construção de nossas ideologias começaram desde as nossas origens indígenas. As políticas indígenas são construídas entre as diferentes forças da natureza, humanidade, pensamentos, filosofias, conceitos, preconceitos...


As histórias de nossas vidas políticas começaram sentir outros desafios a partir da chegada de europeus [no Brasil – 1500]. Além de sofrimentos físicos começamos a carregar os pesos das forças de preconceitos, desvalorização, inferiorização, dominação, escravização... As resistências de nossos antepassados são novas políticas construídas através de fugas, resistências, medos, mortes... Nessas histórias tivemos homens e mulheres corajosos que organizavam seus povos para resistir de forma organizada contra os invasores de nossas terras, agressores e matadores de nossos parentes. 


Na história mais recente, na década de 1970 nós povos indígenas do Brasil organizamos um grande movimento para reivindicar o respeito pela nossa dignidade, valorização de nossa história, nossa diferença, nossos direitos, nossas terras, nossos costumes, línguas... Num clima de resistência, fortalecimento das identidades indígenas e construção da autonomia, em conjunto com os povos nãoindígenas aliados às nossas causas na nova Constituição da República Federativa do Brasil (1988), nós vimos os nossos direitos juridicamente reconhecidos. O artigo 321 diz: são reconhecidos aos índios originários a sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.


Em nossa região do rio Negro – AM, em 1987 foi criada a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), para marcar nova fase da organização social e política de nossos povos: reconstrução e revitalização da força cultural; fortalecimento das ideologias e políticas de autonomia e autodeterminação; construção das alianças a favor de nossa causa; união dos povos indígenas; construção de novas perspectivas da vida; construção das comunidades com objetivos comuns; superação das divisões tradicionais entre as etnias; construção de alianças com os partidos políticos, administração pública; enfim, busca de respostas para os problemas sociais da nossa região. 


Depois de muitas lutas e reivindicações foram demarcadas e homologadas as terras indígenas.


Aqui entre nós ainda vivem e atuam pessoas que participaram dessas lutas. E, hoje com as terras demarcadas o movimento indígena elabora outros discursos e práticas: projetos de desenvolvimento de sustentabilidade e auto-sustentabilidade, escolas indígenas [ensino fundamental e médio]; programas de ensino superior... Algumas iniciativas deram certas, mas não se tornaram políticas públicas, pois os governantes não quiseram.

No campo da política partidária em nosso município os indígenas cidadãos brasileiros participam ativamente para traçarem novas perspectivas de vida. Vemos assim, que nós não somos somente pertencentes de um povo específico, mas ampliamos nossas alianças políticas, formamos partidos políticos, afiliações ideológicas etc. Já ultrapassamos as nossas políticas étnicas. Agora formados outras “tribos”, onde o que vale é o seguimento de ideologias específicas, partidárias.


Em todas as áreas e setores estamos procurando criar novos modos de viver, trabalhar, administrar. Não acertamos em muitas coisas, porém, estamos dentro da dinâmica de querer começar um novo e grande trabalho de implantação de ensino superior. Estamos construindo políticas específicas, políticas a partir de nossos olhares, nossas percepções, nossas apostas. Hoje não basta construir histórias novas somente com políticas indígenas e, também não é bom que somente a política não-indígena dirija nossas vidas e nossas histórias. Nesse contexto é importante que nós povos indígenas depositemos confiança nas nossas capacidades de pensar, trabalhar, dialogar, negociar, interagir com diferentes projetos de trabalho.


Dentro desses contextos que eu utilizo o conceito de autodeterminação. As ideias postas no início deste evento servem para nos ajudar na reflexão de como se poderia construir a autodeterminação na atualidade. A partir de agora é importante entender que nós estamos mais preparados para assumir certos trabalhos que antes não estavam ao nosso alcance. Para muitas realidades que ainda estamos inseguros na sua realização devemos convidar responsavelmente especialistas de diversas áreas do saber pensar e do saber fazer, para que nos ajudem a pensar, discernir, elaborar projetos, gerenciar e gerir recursos humanos, materiais e financeiros. Ao dizer
isso eu não estou criando uma dicotomia, de dizer que o pensamento indígena é bom e pensamento ocidental é muito melhor.


Eu entendo que construir a própria história, construir o seu próprio nome [=autonomia] tem o seu preço. No evento passado, Prof. Dr. Nicanor Rebolledo, professor mexicano nos contava suas experiências com Universidades Indígenas de seu país. Nas narrativas dessas histórias ele nos apontava algumas ideologias que nós devemos levar em consideração em nossas discussões sobre políticas do ensino superior indígena.


Ao concluir esta reflexão sobre o tema autodeterminação dos povos indígenas do Rio Negro, retomo algumas ideologias e algumas práticas necessárias para construirmos a nossa autonomia e autodeterminação:


 Vamos assumir nossas histórias atuais de povos indígenas e construir programas de ensino superior e universidades que tenham como o fio condutor a descolonização das ideologias, conceitos, conhecimentos, currículos. 

Vamos construir diálogo amplo com o mundo global. Vamos aprender olhar o mundo local, com o olhar voltado para o mundo global e vice-versa.

 Vamos criar Instituição de ensino superior que seja de qualidade e de valor para nós indígenas e para o governo. Vamos criar programas de cursos universitários que estejam sujeitos a avaliações da validade e qualidade de ensino com critérios globais [universo global] e com critérios de nossos sábios, comunidades indígenas [universo indígena].
 Vamos criar cursos que tenham valor e com diplomas válidos para qualquer parte do mundo e válidos para nós e para nossas comunidades. Hoje em dia é impossívelconceber um estudo de qualquer grau sem certificado e diploma. 


 A política de descolonização já começou no meio de nós e conosco, pois nós estamos questionando o mundo que estamos vivendo, que construímos até agora, estamos questionando sobre as histórias que construímos até agora, estamos questionando as histórias que os outros construíram para nós. A política de descolonização é começar pensar diferente, posicionar ativamente frente às ideologias dominantes colonizadoras.


 Vamos questionar a nossa própria afirmação das culturas. Vamos criticar nossas próprias ideologias. Vamos trabalhar para reabilitação das culturas indígenas, fortalecimento das culturas e do pensar indígena.
 Vamos apoderar-nos das ideologias do diálogo de iguais, diálogos de diferentes, porém, não de desiguais nem de inferiores. 
 Vamos reconquistar nosso papel de sujeitos das histórias. Vamos pensar como indígenas.
 Vamos reassumir e fortalecer primeiro a filosofia intra-cultural para construirmos uma filosofia intercultural. Dentro da filosofia intra-cultural vamos descolonizar os discursos indígenas. O professor mexicano nos lembrava que dentro de algumas culturas indígenas têm muitos componentes colonizadores.
 Vamos promover processo de reconhecimentos dos povos indígenas como pessoas para reconstituir e reconstruir novas identidades indígenas com novos pensamentos.
 Vamos fortalecer nossas capacidades de fazer trocas com outras culturas. Vamos promover processos de reflexões sobre nossas culturas: como nós queremos que seja a nossa cultura?
 Vamos investir e gerenciar a vida dos acadêmicos indígenas para que eles se tornem indígenas comprometidos com os povos indígenas. Vamos fazer alianças com os nãoindígenas comprometidos com as nossas histórias. Nesse ponto o professor mexicano foi enfático quando disse que existem muitos formados que são mestres e doutores que
não possuem condições e nem possibilidades de trabalhar e ter domínio no campo indígena.


Caros amigos e queridas amigas são essas ideias que eu pensei durante vários dias. Elaborei e re-elaborei diversas vezes esse texto, tentando colocar as ideias que surgiam nas minhas reflexões. Com certeza a partir das ressonâncias que terão em vossas vidas surgirão outras ideias, outras reflexões e quem sabe ideias mais bonitas e proveitosas. 


Vamos em frente, pois o caminho que começamos não tem retorno. Nós sabemos o que nós queremos. Sabemos onde queremos chegar. Sabemos como queremos trabalhar. Sabemos para quem estamos trabalhando. Enfim, sabemos com quem podemos contar!