Espaço Ameríndio

 

     As Universidades Federais do Brasil vem implementando as Políticas Afirmativas, tal como rege a lei. O fato provoca o sentimento de que cada vez as universidades estão mais abertas para atender as reivindicações das classes sociais menos favorecidas, dando conotação de uma política de justiça social.  Entretanto, quando olhamos de perto, nem todos os programas de pós-graduação aderem essa política, muitas são as justificativas utilizadas para a não implementação das mesmas, porém, é preciso avaliar com cuidado os interesses que estão por detrás desta recusa.

            Tomando essa política como justiça social, as universidades tratam os diferentes sob a mesma ótica, ou seja, negros, ribeirinhos e indígenas como sociedades desfavorecidas. Entretanto, para além dessa visão, cada grupo possui uma diferença fundamental, pois cada qual possui modelos próprios de formação, produção e geração de conhecimentos. Neste sentido, cada um tem muito a contribuir para a construção e consolidação do conhecimento, debatendo conceitos fundamentais da Antropologia, sobretudo, o de natureza, mundo, cultura, ambiente, humanos e não humanos, entre outros.

            No âmbito do programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFAM, nós, indígenas, beneficiários da política afirmativa, temos levantado algumas questões sobre nossa presença e nossa forma de produção de dissertação nos moldes que rege as normas vigentes da Universidade e que se impõem aos programas de pós-graduação. Levantar essas questões não significa apenas questionar a estrutura já pré-estabelecida, mas a forma como ela é construída e pensada, uma vez que não há participação direta de representantes negros, ribeirinhos e indígenas no processo de construção das matrizes que orientam as normas dos PPG’s.

            Nesse sentido, por meio do Colegiado indígena, temos apresentado ao Colegiado do PPGAS/UFAM sugestões que possam vir a contribuir para o bom desempenho dos alunos indígenas no processo de consolidação da Antropologia na Amazônia. Essa luta tem nos rendidos conquistas e desafios, mas o mais importante é que o espaço da pós-graduação seja tomado como o lugar para se pensar sobre nossos conhecimentos para além de narrativas míticas, dotando-se minimamente da literatura.

            Estar nesse espaço tem nos exigido metodologias pouco incomuns, por exemplo, as entrevistas diretas, perguntas elaboradas e a consulta bibliográfica não têm rendido muito para extrair filosofia indígena. Eu por exemplo, tomei meu pai como interlocutor principal, falando nossa língua, todas as manhãs, ele partilhava comigo contando mitos e lançava mão de bahsessé (vulgarmente conhecido como benzimentos), isso rendia longas horas de conversas durante o café da manhã. Durante a conversa, eu, na qualidade de pesquisador, promovia reflexividade junto com ele sobre o que ele contava. A conclusão que chegamos é que as qualidades dos bichos podem ser tomadas como “roupa” pelos super-humanos (wai-mahsã) e humanos para efetuar certas atividades, para certas finalidades. Ou seja, os bichos não são portadores de qualidades antropocêntricas, qualidades sociais, etc.

Por exemplo, a qualidade do peixe foi tomada pelos protos humanos para sair da condição de wai-mahsã para condição de humanos e para sobreviver dentro da canoa submarino para a longa viagem no leito do rio, do Rio de Janeiro até o Rio Uaupés. 

Em outros termos, o que se colocava era um problema central na antropologia. Era preciso olhar mais de perto a diferença fundamental dentro das diferentes formas discursivas dos especialistas indígenas, ou seja, meu pai nunca tinha pensado ou refletido sobre seus conhecimentos – Kihti-ukusse (narrativas míticas), bahsesse (benzimentos) e bahsamori (ritos cerimonias).

Para continuar nosso trabalho de reflexividade propomos realizar um Simpósio de Kumuã (pajés, xamãs) Tukano do Alto Rio Negro. O simpósio foi realizado, e o trabalho está na fase de sistematização pela equipe de pesquisadores do Núcleo de Estudo da Amazônia Indígena – NEAI, composta de pesquisadores indígenas e não indígenas.

Dessa forma, do nosso ponto de vista, implementar a Politica Afirmativa significa apostar na existência da diferença real entre os modelos de conhecimentos, longe da ótica de justiça social, na medida em que, o mestrado e doutorado são espaços de produção de conhecimentos. Digo isso porque, Eu, ao lançar mão da Antropologia para estudar meu conhecimento (Tukano), pude perceber que as concepções Tukano operam como categorias e conceitos que se aproximam e se distanciam dos conceitos da ciência sobre a mesma realidade, e o mestrado foi um bom lugar para “revelar” tal diferença.

Mas é preciso que os programas “quebrem” os próprios paradigmas de seleção, orientação, defesa, etc. No caminho, muitas vezes foi necessário quebrar os critérios cristalizados pelo programa, uma delas foi a inclusão de uma liderança indígena tukano, Domingos Barreto, conhecedor da realidade e narrativas míticas tukano na Banca Examinadora.

               Texto de João Paulo Lima Barreto.