Espaço Ameríndio

Miriã ou Jurupari?

Gabriel Sodré Maia

Pesquisador do NEAI

 

Os Estudantes Indígenas Yepamahsã (Tukano) do curso de Pós-graduação em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas-UFAM, e pesquisadores do Núcleo de Estudo da Amazônia Indígena-NEAI, buscam esclarecer os conceitos distorcidos, ocorridos nos tempos remotos, pelos primeiros etnógrafos que aventuraram na região do Alto Rio Negro. Sobretudo a palavra miriã.

A palavra miriã simplesmente foi traduzida pelos primeiros missionários como Jurupari (demônio-da língua Tupi e do Nheengatu), por questões da evangelização e também da linguagem Tukana, ou seja, os bʉhkʉrã (velhos conhecedores) não tinham argumento suficiente e paciência para relatar a importância do significado dos miriã, assim sendo, os etnógrafos a partir do uso dos instrumentos musicais denominaram por jurupari, porque todas as vezes que, os homens tocavam esses instrumentos às mulheres e as crianças se retiravam do lugar, e elas eram proibidas a presenciar no momento do toque, porém pode ouvir. Se porventura alguém por curiosidade expiar, esta pessoa era castigada com dohasé (sopro maléfico) muitas vezes levando ao óbito. Para evitar esta atitude de levar o dohasé, as mulheres e as crianças todas às vezes se retiravam do lugar (bahsari wi’i), ficando só os homens com seus instrumento musicais e com a bebida kaapi.

Segundo o mito, a mãe de Ʉtaboho O’ãkʉhʉ ou conhecido como Biisiu, jamais viu a face do seu filho, devido que o Yepamahsʉ e Ʉmʉkomahsʉ, após o seu nascimento levaram na casa de Ʉtãboho wi’i (casa de mármore) que fica acima do omé ma’a. Futuramente Ʉtaboho O’ãkʉhʉ originou todos os instrumentos musicais. Portanto jurupari tem um sentido equivocado no contexto dos conhecimentos dos Yepamahsã (Tukano).

O toque de miriã (instrumentos musicais dos Pamʉri-mahsã) é usado nos dois primeiros eventos do póose (dabucuri), na estação de Ayã (Jararaca) que se executam o dabucuri de frutas (yukʉdʉhka) e também na estação da Yai (Onça) com póose de wai (peixes). Além do toque de miriã, existe o consumo de bebida de vários tipos de caxiri (pêeru), e para os velhos o consumo de kaapi (bebida forte oriunda do kahpêrinihi, irmão de Ʉtãboho O’ãkʉhʉ), esta bebida está reservado ao consumo masculino e servido pelos próprios homens, e também o indispensável do consumo de mʉroro (cigarro) e de pâatu (pó de coca), alimento consumido na forma de pó, extraído na folha de coca, é tido para os Tukano como o “pó da memória”. O pó é consumido em pequenas porções, sendo colocado em cada lado interno da boca com prudência, ao contrario o consumidor pode se engasgar, levando a morte.

O miriãporã (instrumentos musicais tocados pelos descendentes dos Pamʉrimahsã) forma uma orquestra dentro da floresta, com seu som volumoso, composto por vinte e dois pares de instrumentos.

- ʉmʉtari dʉka,(Pedaço da frente); - dʉtʉ ((esquilo) instrumento feito de paxiúba medindo 40 centímetros, quando sopra faz um som de extremidades. Este instrumento representa os Tukano.)- Dahsé-dʉka (pedaço de tucano), é uma única flauta que o músico põe à boca com a mão esquerda, enquanto a mão direita segura um açoite, o tãrarí-wãhso, que é um “caniço”, ou bambu fino. O açoite é movimentado, produzindo a sonoridade de chicoteada, ao mesmo tempo em que a flauta soa).  -Aâ (gavião); Doé((traira);  I’siá((fruta não identificada); Pẽtoa (animal não identificado); Pawá-pahko (mãe de jundiá); Ãrʉro (pequena ave da família tucano); A’kãgʉ-pata (besouro que vive em paus podres); Wa’u-dʉpoa(cabeça do macaco da noite) Os trompetes são segurados com as duas mãos, à direita segurando o bocal de paxiúba próximo à boca, a outra segurando o corpo do trompete por baixo, servindo como apoio para levantá-lo e abaixá-lo. - Ẽhõro (Instrumento usado pelo baya principal. O som traz a lembrança do choro de Ʉtãboho O’ãkʉ. Tocado quando todos os participante estão sob efeito de kaapi.); Merê-ãsi (macaco prego); Yaí (onça); Yamâ (veado) fornece o modelo básico para as outras trombetas tocar, mas quando toca deve ser realizada por um homem andando na frente, carregando em suas mãos as pontas do par de trombetas. Enquanto caminha, o homem transformar-se na ponta da trombeta soará. É geralmente acompanhada apenas por um par de flautas curtas. É a única flauta realizada em desfiles, mas não muito tocado. Tʉʉtʉ (jacamim); Bʉhpo (trovão) Pirõ (cobra) Aké (macaco) Di’arã-yõri (palmeira rainha), Diá-umû (japu da água); Kitio-bohka (feixe de chocalho).  

  O que é miriã? São instrumentos musicais consideradas relevantes no uso de toque no dia de póose (dabucuri) e de amoyerinʉmʉ (iniciação masculina). O miriã (instrumentos musicais dos Pamʉri-mahsã) é oriundo de o primeiro ser humano nascido no parto normal, com o nome de Ʉtãboho o’ãkʉ[1], conhecido como Biisiu.

O Biisiu tinha o corpo cheio de orifícios, mas ninguém o sabia, pois ninguém os
via, porque sempre estava recoberto pelos enfeites das danças.
Ele era o ser de instrumentos musicais, era o conhecedor de vários toques musicais e andava nas quatro primeiras grandes malocas (norte - Tâ’t-wi’i (casa de constelação), sul – Doê-wi’i (casa de traíra), leste – Siripi tuhti (caverna de andorinha), oeste – Osô tuhti (caverna de morcego) ensinando como toca-los. Mas, um dia ele morreu queimado. Antes disso, porém, Biisiu disse: "dos meus ossos brotará uma paxiúba e todos os instrumentos serão feitos dos meus ossos". No lugar onde ele explodiu cresceu uma paxiúba muito fina e alta até o céu. A partir de então, os Pamʉrimahsã passaram a conhecer os instrumentos que estavam no corpo de Ʉtãboho Õ’ãkʉ. As flautas karisu-weõ eram suas mãos e as flautas buhpuwʉ (Japurutu) eram seus braços. Das pernas surgiram às flautas miriã, que são as mais importantes. Com o passar do tempo os Pamʉri-mahsã viriam a obter todos esses tipos de flautas.

Como foi encontrada a palmeira de paxiúba prometida pelo Ʉtãboho Õ’ãkʉ, e por quem?

Um dia, as filhas de Ʉmʉkoho mahsʉ (ancestral dos Dessano), resolveram capturar as formigas maniuaras (mehkã). Para isso, foram até a mata e depararam com uma palmeira de paxiúba muito interessante, e ficaram interessadas em fazer um suporte para o cumatá (tõhpa), o que não tinha na casa. Retornando da captura de maniuaras, contaram ao pai que encontraram uma paxiúba muito atraente e pediram que ele fosse busca-la para fabricar um suporte de cumatá (tõhpa)[2].  No dia seguinte, Ʉmʉkoho mahsʉ foi ao local indicado, e lá notou uma coisa estranha e interessante.  Convocou todos os animais para uma averiguação completa, e descobriu que aquela palmeira tinha vida, e percebeu ainda que quando a pessoa tocava com a mão na palmeira, esta emitia sons encantadores, e então lembrou-se da fala de Biisiu. Ʉmʉkoho mahsʉ pensou seriamente, e decidiu que com esses instrumentos iria fazer a amoyese (iniciação de seu filho).

No dia marcado, houve o inesperado, o Ʉmʉkoho mahsʉ por volta da meia noite tentou acordar o seu filho, ele por sua vez demorou em acordar, tendo as mulheres acordado primeiro. Assim, nesse dia, ao invés do filho, foram as filhas[3] as primeiras a encontrar os instrumentos musicais (miriã). De posse desses instrumentos, elas queriam criar os seres humanos. E fugiram com os instrumentos. No percurso por onde elas passaram, existem as casas que tem kahtiro kʉose wi’iseri “casas que têm vidas”, nessas casas, as primeiras mulheres realizaram festas e criaram algumas mulheres. Mas havia um detalhe desesperador, nenhuma delas sabia tocar os instrumentos. E foi aumentando a população de mulheres. As lideres, vendo isso acontecer, resolveu fazer a sua própria iniciação, com os instrumentos roubados. A primeira tentativa de fazer a iniciação entre as mulheres, apesar de não conseguir tocar os instrumentos musicais aconteceu na cachoeira de pato, conhecida em Tukano como kahtapa poeya. Porém foram impedidas pelo Ʉmʉkoho mahsʉ, que com sua zarabatana e setas envenenadas tentou acertar uma das mulheres mirando diretamente na vagina. Com tiro certeiro, poderia parti-la ao meio e assim, fazer desaparecer todas as mulheres que a acompanhavam e recuperar os instrumentos. No exato momento em que o Ʉmʉkoho mahsʉ assoprou a zarabatana, seu filho apareceu repentinamente e esbarrou na arma, assim errando o alvo. As mulheres viram e começaram a fugir rio abaixo.

Isso aumentou ainda mais a preocupação de Ʉmʉkoho mahsʉ, que resolveu partir em perseguição às mulheres. Ema vários momentos Ʉmʉkoho mahsʉ, foi se transformado em diferentes animais, para retomá-la os instrumentos, sempre foi descoberto pelas filhas, prejudicando assim o seu plano. As filhas notando a perseguição do pai, no desespero, resolveram esconder os instrumentos, introduzindo-os desesperadamente em suas samâro (vaginas). Como os instrumentos tinham vida, eles se incorporaram nelas.

Finalmente, na cachoeira de Aracapá (tõ’okapa’a),  Ʉmʉkoho mahsʉ, resolveu construir uma armadilha invisível com o seu poder, e conseguiu impedir a fuga. As líderes foram capturadas por  Ʉmʉkoho mahsʉ com a ajuda do filho, e todas as mulheres que foram criadas no decorrer da fuga se transformaram em árvores[4], porque viram as líderes capturadas e abusadas sexualmente pelo próprio irmão. No lugar onde o filho de Ʉmʉkoho mahsʉ agarrou a sua irmã mais nova e abusou sexualmente ficou conhecido como pelo nome de o’sara, (lugar do barulho do coito) nesse local originou-se a primeira violência sexual. A mais velha fugiu rio acima, alcançada na sẽ’â poewa, a cachoeira da piaba próxima a Teresita missão colombiana. Ali ela foi capturada e também violentada pelo irmão. Por isso, o lugar ficou conhecido como wãkirĩtʉrʉ, “barranco de excitação”. Nesses dois lugares, tanto o’sara e wãkirĩtʉru, podemos verificar que existe ewá (caiá) para capturar as piabas, ou seja, as piabas sobem nessas corredeiras sentindo o odor de espermas ejaculado pelo filho de Ʉmʉkoho mahsʉ juntamente com óvulo feminino, para se alimentarem o liquido desperdiçados. Aqui os velhos afirmam o surgimento das primeiras doenças sexualmente transmissíveis, e os mais comuns são sisiro wãkĩse (candidíase), por causa do wãkirĩtʉrʉ e wahso mehã (corrimento) por causa de o’sara, entre outras.

Por isso que as piabas que caem nessas armadilhas, nos dois lugares tanto no  o’sara e wãkirĩtʉru, antes de serem consumidas devem passar pelo bahsese feito pelo bʉhkʉ (velho conhecedor), caso consumido sem o uso de bahsese, a pessoa capaz de adquirir doença sexualmente transmissível sem nenhuma prática, inclusive as mulheres. Podemos afirmar que uma das mulheres abusada foi ao sul, e levou a doença, e a outra foi oeste, portanto essas doenças surgiram em outros lugares por falta de bahsese, o que contaminou consequentemente a toda a humanidade. 

Para curar essas doenças no mundo indígena é necessário fazer o bahsese. Por isso que os velhos bahserã, quando fazem o bahsese, elencam todos os tipos de palmeira de wahtayõ, porque delas saem líquidos quando corta e que coçam quando passam na pele da pessoa, e também todos os tipos de aburi que aparecem nas pedras. Os dois tipos foram originado das espermas ejaculado pelo filho de Ʉmʉkoho mahsʉ quando estava se abusando das suas próprias irmãs e aprovado pelo próprio pai.

Esta atitude (abusar sexualmente) foi realizada por questão obvia, porque as mulheres tiveram a temeridade de desrespeitar a hierarquia masculina, e por elas violaram os costumes em que só os homens podem tocar os instrumentos miriã, como de castigo o Ʉmʉkoho mahsʉ ordenou ao seu filho a praticar essa atitude, e teve por objetivo de aniquilar as primeiras mulheres perenemente. O que não aconteceu, porque se o filho tivesse ejaculado dentro da mulher, evidentemente as mulheres vítimas seriam mortas, porem o filho tinha dó das irmãs e no momento exato, impeliu-se fora.

Assim,  Ʉmʉkoho mahsʉ perdeu definitivamente seus instrumentos musicais, que se incorporaram nas mulheres, ou seja, as miriã originais construídas a partir dos ossos de Biisiu foram perdidas. Esse episódio aconteceu no trecho de wahpʉ mu’u abaixo da missão colombiana de Piracuara, até a cachoeira de Aracapá no rio Papuri.

Diante desse acontecimento podemos verificar que os instrumentos musicais oriunda dos ossos de Bissiu foram perdidos definitivamente, incorporando nas primeiras mulheres as filhas de Ʉmʉkoho mahsʉ. Envergonhadas e arrependidas  pelo fato, elas se resolveram morar nos lugares diferentes, a irmã mais velha seguiu o caminho para Amoá-koo (um lago que fica no rio Uaupés acima da cidade colombiana de Mitu). Seu nome passou então a ser Amó. Enquanto as duas irmãs mais novas foram à direção ao sul, se comprometendo de fazer roupas, e fazer terçados, machados e outras ferramentas para mandar ao irmão delas. Elas ficaram conhecidas como Su’ti mahsã numia (mulheres roupas).

 

Destarte, concluímos que o miriã não há nada que comparar como demônio, a expressão usada pelos primeiros etnógrafos partiu do não domínio da língua tukana, e também pelo fato que no momento do toque de miriãporã as mulheres e as crianças se retiravam do local de bahsari wi’i. No inicio das primeiras etnografias no alto rio negro, evidentemente existiam pouca pessoas habilitadas a dialogar as questões míticas, porque a região estava no domínio da era “cristã”.  Entretanto o mito torna-se pertinente aos amantes da Antropologia. 



[1]Ler o mito “A viajem ate dia wi’i”. Tradução literal “Deus quartzo”

[2] Instrumento indígena utilizado para espremer a massa de mandioca e tirar o liquida de manicuera (Yõkã)

[3] As primeiras mulheres Dessana.

[4] Em Tukano, Yukʉmahsã numia.