Espaço Ameríndio

Antes, não havia nada no universo além da escuridão, por isso, cansado de viver sozinho, o “Avô do Universo” chamado Ʉmʉrĩ ñehkʉ – um ser que segundo a crença, surgiu por ele mesmo – decidiu criar a terra e todos os seres para habitá-la.
Utilizando-se de sete peneiras, cada uma feita de um material diferente, criou a terra, matas, rios, animais e peixes em um ritual onde abençoava cada objeto. Assim, a “peneira de uarumã de água será os rios e lagos de crescimento da Gente do Universo, cujo fim é proporcionar a bebida e a saúde que nunca terá fim”.
  
Assim que terra e água começaram a existir, Ʉmʉrĩ ñehkʉ abençoou mais uma vez a terra, benzendo-a como se fosse uma mulher para que ela gerasse filhos. Feito isso, surgiu uma mulher, Yebá Buró, a “Velha da Terra”, como o primeiro retrato da mulher-mãe, a qual as mães das gerações futuras iriam se assemelhar. Eles se saudaram, mas durante muito tempo Ʉmʉrĩ ñehkʉ procurou gerar sozinho a “Gente do Universo”, no entanto, nunca obteve sucesso e foi somente com a participação de Yebá Buró que a criação da gente universa foi possível.
 
Em demorada cerimônia, Ʉmʉrĩ ñehkʉ permitiu que Yebá Buró soprasse a fumaça de um cigarro para dentro de uma cuia que estava sobre um suporte e foi coberta em seguida por outra cuia de mesmo tamanho, ao mesmo tempo em que soprou a fumaça, Ʉmʉrĩ ñehkʉ orava para abençoar a mulher. Quando terminaram a cerimônia, os dois destamparam a cuia e viram sete sinais de gente, parecendo-se larvas.
- “Agora sim, nós conseguimos formar a Gente do Universo”, disse Yebá Buró. Mas Ʉmʉrĩ ñehkʉ estava preocupado em saber quem seria o líder supremo dos sete sinais de gente, e somente depois de algumas horas, decidiu: - “O primogênito será Abe, a luz que nunca terá fim, fará o bem para os seus irmãos e dominará a terra inteira”. Em seguida, abriu a cuia e ordenou:
 - “Abe, saia da cuia transformadora e comece agora seu trabalho
Abe saiu da cuia e no mesmo instante surgiu à luz, pouco depois surgiram às estrelas que mais tarde geraram seus descendentes. Depois, Ʉmʉrĩ ñehkʉ voltou-se de novo para a cuia e disse:
 - “O segundo irmão será Deyubari Gõãmu. Dono da caça e da pesca, inventará instrumentos para que as gerações futuras se alimentem. Agora saia da cuia e comece seu trabalho conforme eu lhe ordenei”.
Assim, de igual modo, os sete sinais de gente se transformaram nos sete líderes ancestrais dos Desana. Segundo o grupo dos Wahari-Dihputiro Põrã, Baaribó é o dono das plantações; Buhsari gõãmu, o mestre da natureza, Wanani gõãmu, o dono do veneno, e as líderes mulheres Amo e Yugupó, trabalham na nascente dos rios (Amo), e na foz (Yugupó).
 Ao final, o leitor deve perceber que as duas líderes mulheres não são sequer citadas após sua gênese entre as sete larvas na cuia de Ʉmʉrĩ ñehkʉ. Entre o conceito de falha editorial e o que a nossa cultura interpretaria como menosprezo, a cada página, percebe-se o papel apenas secundário do feminino na mitologia e a exceção de sua importância para a criação da Gente do Universo.
Caso a hegemonia do masculino se manifeste nas relações interpessoais dos indivíduos desta sociedade em questão, fica a ordem de Ʉmʉrĩ ñehkʉ para as duas líderes como a perspectiva de “serem as grandes criadoras e seus trabalhos serão muito prestigiados pelas gerações futuras”.
 Abe resolveu procurar um bom lugar para morar sossegado, conversou com seus irmãos para saber onde poderia ficar para tomar conta de todos eles. No fim, resolveram que Abe deveria morar no centro do universo para iluminar o mundo inteiro, e assim fez o imortal e líder supremo dos Ʉmʉrĩ Mahsã (Gente do Universo). Deyubari Gõãmu, o segundo líder, casou-se com uma descendente da Gente-Estrela, o problema é que os descendentes da Ʉmʉrĩ Mahsã não reconheciam a liderança da Gente-Estrela, embora esses tivessem surgido no mesmo momento que a luz de Abe. Com o passar do tempo, a Gente do Universo foi enfraquecendo o poder da Gente-Estrela e os baniu, por este motivo a união de uma descendente com um Ʉmʉrĩ - Mahsã era mal vista pela Gente-Estrela, que conseguiu separá-los deixando Deyubari Gõãmu sozinho para criar um filho, enquanto o outro foi transformado em pássaro.
Além da beleza simbólica das alegorias, a mitologia revela ao leitor a origem de todas as coisas existentes na natureza. No livro de meu pai “A mitologia sagrada dos Desana-Wari Dihputiro Põra de Diakuru (Américo Castro Fernandes) Kisibi (Dorvalino Moura Fernandes) (1996,UNIRT;FOIRN), a ênfase se concentra na origem das doenças segundo a cultura dessano, já que todas são conseqüências de algum episódio mítico. De igual modo, descreve o uso de plantas e a prática de Benzimentos que são utilizadas pelos kumauã no combate a esses episódios(doenças). Mas, todos falam que a origem do povo, dos animais e plantas, é uma origem espiritual. Assim, pode-se dizer, sem afirmá-la como tal, que a Antropologia pós scontemporânea tem a capacidade de explicar o mundo. Deste modo, “O mito Desana  é uma ciência de sabedoria vivenciada e vivida pelo grupo  Desana-Wari Dihputiro Põra”.
Para ilustrar esta matriz de pensamento, registro que as constelações que os Desano do grupo Wahari Diputiro Porã se configura como indicadores das mudanças de estações que acontecem entre o nascente e o poente. Quando uma constelação entra no poente, na boca da noite, sempre acontece uma enchente ou inverno (puiro). No final desta enchente, forma-se um pequeno verão (bohori) de alguns dias ou uma semana. Antes de cada lua nova, sempre cai também uma pequena chuva.
A visão indígena ao que se refere à astronomia é diferente da relação dos cientistas atuais, porém, semelhante a dos cientistas de séculos passados que estudavam o céu no sentido de acompanhamento para auxiliar a sobrevivência. Para “nós” que somos indígenas, que não possuía escrita (eram ágrafos), a sociedade e o cotidiano eram regulados pelas constelações, tal como o sol e a lua. De modo que as informações adquiridas na regularidade das constelações, ajudavam a determinar a época das larvas comestíveis, dos animais de caça e das festas rituais e religiosas. Portanto, tudo é coordenado pelo céu, e a “a terra é o reflexo deste céu. Nossos ancestrais detinham o conhecimento e aplicavam na ecologia e na biodiversidade existente”.


* Jaime Moura Fernandes é da Etnia Desana, graduando do curso de Licenciatura Indígena da Universidade do Estado do Amazonas - UEA e, colaborador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena - NEAI.