Espaço Ameríndio

Meu velho pai Diakuru kumũ quando eu era criança contava que o Ãhgã Deyë (o Inambu-rei) morava na serra de Abiu, no Diá Karẽyã (rio abiu), afluente Rio Uaupés, na fronteira do Brasil com a Colômbia.
O Ãhgã Deyë era chefe de seres do mundo dos animais (aves). Um dia ele recebeu um convite do Diá-pírõ (Cobra-Grande), para fazer abertura de dança ritual que o Diá-pírõ (Cobra-Grande), estava preparando no Dia wii (Casa de Rio ou casa de gente peixe) uma ilha que fica no rio Uaupés com a boca do rio Tiquié. A festa de dança ritual da piracema de vários tipos de peixes dos rios que iam festejar-se na casa do Diá-pírõ (Cobra-Grande). Por tanto o Ãhgã Deyë (o Inambu-rei) era convidado especial da festa do Diá-pírõ (Cobra-Grande) como mestre de dança ritual e nisso expandiu o mundo inteiro que o Ãhgã Deyë (o Inambu-rei) que vai dançar numa grande festa de dança ritual no Dia wii (Casa-Rio de gente peixe), todos os animais ficaram sabendo e outros queriam muito ir à festa por curiosidade para conhecer e participar na dança ritual junto com Ãhgã Deyë (o Inambu-rei).
O único animal que não foi convidado pelo Diá-pírõ (Cobra-Grande) para participar da festa de dança ritual foi Woa (Mucura), mas mesmo assim ele resolveu comparecer no Dia wii, (Casa- Rio de gente peixe) como se fosse convidado.
O Diá-pírõ (Cobra-Grande) tinha duas filhas bonitas e simpáticas. Mas ele tinha muitos ciúmes por elas. Por isso, resolveu não apresentar as filhas aos convidados. Ele pressentia que algo aconteceria com suas filhas. Ele as trancou numa Bayabuya Koro (Caixa onde guardam enfeite de rituais). Quando o Ãhgã Deyë (o Inambu-rei) iniciou a dança ritual as filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande), abriram uma brechinha para espiarem a dança e o dançarino. E viram o Ãhgã Deyë (o Inambu-rei), era muito bonito. Então elas chamaram o pai Diá-pírõ (Cobra-Grande) para participar da dança do Ãhgã Deyë (o Inambu-rei). Mas elas se apaixonaram pelo Ãhgã Deyë (o Inambu-rei), pela sua aparência e pela dança que ele apresentava durante a festa de dança ritual. Elas ficaram interessadas em conhecê-lo melhor. Ao término da festa as duas filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande) foram pedir ao Ãhgã Deyë (o Inambu-rei) que elas queriam conhecer a maloca dele e morar com ele.
Vendo interesse delas, o Ãhgã Deyë(o Inambu-rei), falou:
 – Vou fazer uma festa de Dabucuri na minha maloca. Se vocês querem conhecer vou indicar o caminho da minha maloca com a pena de arara de cor verde. Antes de entrar no caminho dá um toque na pena de arara verde e se for meu não vai ter som, e se for de mucura terá som com nome dele: Woãã, Woãã. 
Nesse momento da conversa com as filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande)  quando elas estavam sendo convidadas à festa de dabucuri do Ãhgã Deyë (o Inambu-rei), o Woa (Mucura) escutou a conversa e pensou como ele iria conquistar as filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande)  e resolveu de trocar a pena que indicava o caminho na maloca Ãhgã Deyë (o Inambu-rei) para maloca dele (Woa). Como elas foram orientadas pelo Ãhgã Deyë (o Inambu-rei) de como seguir para a maloca dele fizeram tudo ele havia instruído nem duvidaram e seguiram no caminho errado.
Quando elas chegaram à maloca do Woa (Mucura) sentiram o cheiro de horrível, a irmã menor ficou desconfiada e disse;
- “Mana essa maloca não é do Ãhgã Deyë (o Inambu-rei). E, agora o que vamos fazer?” 
A irmã maior respondeu:
- “Vamos esperar um pouco, se é do Ãhgã Deyë (o Inambu-rei) ou do Woa (Mucura)”.
Enquanto as duas filhas do Diá-pírõ (cobra grande) discutiam o Woa (mucura) chegou à maloca com um embrulho de woa mẽkâ (maniuara de mucura), e escutou a conversa das duas e escondeu o embrulho na varanda da maloca. E chegou perguntando a sua avó mucura:
 - “Chegou gente na nossa maloca?”
A Avó mucura respondeu:
- “Chegaram que sim, meu neto as duas mulheres lindas e simpáticas!”
 E o mucura com orgulho, tornou a perguntar a sua avó mucura:
- “E o nosso empregado, chegou?”
 A avó mucura mesmo sabendo que ele não tinha empregado ela respondeu
- “Ainda não chegou meu neto”.
E o mucura tinha certeza que ele tinha chegado e disse:
- “Vou ver lá fora se ele não deixou mesmo! Foi e trouxe o embrulho de Maniuara que ele mesmo tinha deixado e entregou à avó mucura o embrulho para preparar janta e oferecer as duas filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande)”.
Nesse dia as filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande), pernoitaram na maloca do Woa (mucura). O Woa (mucura) aproveitou para dormir com as filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande), e elas foram afetadas do cheiro do Woa (mucura).
De madrugada, às duas horas da manhã o Ãhgã Deyë tocou o Toasoro (trocano), na hora de levantar de segundo costume dos nossos ancestrais para acordar os seus vizinhos. Mais Ãhgã Deyë tocou o Toasoro (trocano) convidando para sua festa de dabucuri conforme a data marcada quando ele chegou no Dia wii (casa de Rio ou casa de gente peixe). E o mucura escutando o toque de Toasoro (trocano), do Ãhgã Deyë, também foi tocar dele, mas dele tinham som e saía o nome dele Woatë .. Woatë. Ouvindo toque de Toasoro (trocano) do Woa (Mucura), as filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande) resolveram fugir da maloca do Woa (mucura) para buscar do verdadeiro homem que elas tinham se apaixonado durante a festa de dança ritual no Dia wii (casa de Rio ou casa de gente-peixe).
As filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande) chegaram à beira do Dia pahsa (rio de abiu) no afluente do rio Uaupés, e pediram carona com Diakoma (patinho do rio), ele resolveu levar as duas filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande). Mas como elas estavam fedendo com cheiro de mucura, também passaram esse fedor para o Diakoma (patinho do rio). Quando as filhas Diá-pírõ (Cobra-Grande) chegaram ao porto do Ãhgã Deyë mandou o jacamim dar um banho às filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande)  usando em seguintes plantas como: Mëhta (capim de umari) para tirar o fedor e em seguida foram passada com cipó de cheiro o Nekãme (cipó de estrela), Syãsomedá ( cipó vermelho), Wekë yuburideme ( cipó de joelho de anta), terminando de tratar as filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande) e entregaram nas mãos do Ãhgã Deyë o homem do sonho delas.
O Woa (mucura), agoniado, resolveu de ir atrás delas, e antes de sair de sua maloca, ele falou pra avó mucura:
- Avó mucura se Ãhgã Deyë me matar de madrugada vai cair pequena chuva como um sinal de morte, por isso a senhora saia da maloca para aparar o pingo da chuva com a peneira de arumã esse pingo será o meu sangue.
            Depois o Woa (mucura) foi atrás das filhas do Diá-pírõ (Cobra-Grande), na maloca do Ãhgã Deyë. Chegou durante a festa de dabucuri e ficou curtindo na festa e mesmo tempo perturbava à noite inteira para o Ãhgã Deyë, se o Ãhgã Deyë conseguiria ou dividiria uma das filhas Diá-pírõ (Cobra-Grande) para ele.  O Inambu-rei e Mucura ficaram discutindo e brigando por causa das filhas do Diá-pírõ. Como Woa (mucura) havia roubado essas duas mulheres simpáticas que iam a uma festa de Inambu-rei, fazendo-as desviar do caminho e chegarem até a sua Maloca e não até a maloca de Inambu-rei, ele no fundo já tinha o plano de matar Woa (mucura) quando chegasse no dia do dabucuri em sua maloca.  E cansado de perturbação do Woa (Mucura) o Ãhgã Deyë, chamou o seu guerreiro Õõbë (ave-silvestre) para matar.
Como o Woa (Mucura) já tinha dito para avó, na madrugada que ia cair a pequena chuva se ele for morto, quando caiu à chuva na madrugada a avó mucura já estava esperando que acontecesse alguma coisa errada com seu neto. Saiu da maloca chorando e foi aparar a chuva, isso ela já estava esperando. Hoje em dia essa chuva é conhecida Woa dekoriko (dança de mucura) que cai até hoje quando se um ser humano morre sempre cai essa chuva de Woa dekoriko. 
Sabendo que o Ãhgã Deyë, era o responsável pela morte do seu neto Woa (mucura), a avó foi pedir aos Hãgã (gaviões) que matassem Inambu-rei, o culpado. Hãgã (gaviões) fizeram o serviço encomendado pela avó de Mucura, matando e comendo Inambu-rei e entregando para ela o osso da sua coxa direita para ser usado como flauta.
Para vingar a morte do seu neto, a avó de Inambu-rei convidou também os Diroá (Gente-Sangue), as pessoas mais perigosas do mundo, a vingar a sua morte. Os Diroá (Gente-Sangue) eram dois meninos e cada um tinha um arco com flechas e uma zarabatana. Eles passavam o tempo flechando calangos e passarinhos ao redor da maloca. Ela queria que eles lhe trouxessem de volta os ossos do seu neto, assim como os restos mortais dos gaviões. Depois de receber o recado, os Diroá (Gente-Sangue), foram à casa do finado Inambu-rei onde encontraram a velha avó que lhes explicou o ocorrido. Depois de receber as explicações da velha, eles foram até a maloca da avó Mucura.
            Chegaram lá pela parte da manhã. Foram bem recebidos. Depois de muita conversa, a velha perguntou se eles conheciam os Diroá (Gente-Sangue). Responderam que não, mas que tinham ouvido que os Diroá (Gente-Sangue) eram gigantes e muito perigosos. Ela lhes disse então que estava os esperando, que ela queria salvar os seus netos, mas não tinha nenhuma arma para isso. A única arma de que dispunha era o breu que estava fervendo numa bacia ao fogo. Ela pretendia jogar o breu fervente nas costas dos Diroá (Gente-Sangue) quando pegassem os gaviões.
Assim, eles soltariam os seus netos, prosseguiu ela.
-“Quer dizer que os Diroá (Gente-Sangue) vão chegar hoje mesmo, vovó?” perguntaram os Diroá (Gente-Sangue).
- “Sim! eles ficaram de pegar os meus netos assim que eles entrarem nessa Maloca!”
- “A que hora os seus netos devem chegar?”
- “Assim que eu dê o sinal, no cair da tarde!”
- “Quando é que a senhora vai dar esse sinal?”
- “Quando o sol estiver começando a se esconder atrás das árvores!”
- “Nós também queremos conhecer os Diroá (Gente-Sangue) e a ajudaremos!”
            “Ajudem-me, por favor!”
- “Agora, a senhora deve fazer o seguinte! Assim que os Diroá (Gente-Sangue) agarrarem os seus netos, a senhora mistura uma grande quantidade de água na bacia do breu. Assim, aumentará o volume do breu e a senhora poderá jogá-lo nas costas dos Diroá (Gente-Sangue), até eles soltarem os seus netos!”
A velha concordou com a sugestão dos Diroá (Gente-Sangue) e foi apanhar água. Os Diroá (Gente-Sangue) desceram então ao porto para flechar piabas e sapinhos. Prepararam em seguida dois embrulhos, um para eles que continha os peixes, o outro, com os sapinhos, para a avó Mucura. Quando chegaram à maloca, eles enterraram os embrulhos dentro das cinzas. Quando viram que os pacotes estavam cozidos, entregaram o embrulho com os sapinhos para a velha, amaldiçoando-os para fazê-los se transformarem em Kahpi (Bebida feita de um cipó nativo da região amazônica). Por isso, depois de tê-los comido, a velha ficou embriagada. Os Diroá (Gente-Sangue) aproveitaram então do seu estado para lhe perguntar várias coisas. É assim que souberam que os ossos de Inambu-rei eram os instrumentos de música da velha.
Os Diroá (Gente-Sangue) exigiram então que ela tocasse as flautas. Estavam curiosos para ouvir essa música. A avó Mucura estava ficando cada vez mais embriagada e, nos seus olhos, parecia aproximar-se o fim da tarde. Naquela hora, os Diroá (Gente-Sangue)  aproveitaram do estado da velha dizendo que já era o fim da tarde. A velha, sem se dar conta de que, na realidade, o sol estava mais ou menos marcando três horas da tarde, começou a tocar dessa maneira: “Pĩĩĩĩĩĩĩĩĩĩ pĩrẽ, pĩrẽ, pĩrẽ” e se pôs a dançar. Ela arrastava os pés e tocava ao mesmo tempo as flautas.
Na mesma hora, de longe, começaram a ouvir os gaviões cantarem o mesmo canto e se aproximar cada vez mais da Maloca de sua avó, a velha Mucura.
Os Diroá (Gente-Sangue) fizeram a velha tocar as flautas três vezes em seguida. Antes da quarta vez, a avó Mucura disse-lhes:- “Desta vez eles vão entrar na maloca!”
Eram quase quatro horas da tarde. Os Diroá (Gente-Sangue) disseram então:
- “Será que eles não vão comer a gente?”
-“Não, meus netos, mas, mesmo assim, acho melhor vocês se esconderem, eles são capazes de estranhar a sua presença!”
-“Então, eu vou me esconder em cima da porta da frente”, disse o irmão maior.
Assim que ele se acomodou no lugar escolhido, ele se rendeu espiritualmente junto ao Trovão, roubando-lhe o puçá. Logo, esticou o puçá, fechou a porta com ele e entregou o cabo para o irmão menor. Este o agarrou logo e o levou até a porta de trás da maloca, dizendo:
- “Eu vou me esconder em cima da porta de trás da maloca!”
Dizendo isso, ele correu naquela direção. Quando os dois estavam nos seus respectivos lugares, disseram:
- “Nós já nos escondemos, vovó! A senhora pode tocar de novo!
Logo que ela tocou a flauta, os gaviões se aproximaram da maloca e começaram a voar ao redor, cantando e dançando. Depois da terceira volta, vieram rumo à porta para entrar na maloca. Logo, na entrada, eles caíram dentro do pusá. Os Diroá os arrastaram para dentro da maloca gritando em direção da velha:
- “Os Diroá (Gente-Sangue) estão pegando os seus netos!”
Ouvindo isso, a velha se precipitou até a bacia de breu e derramou uma grande quantidade de água em cima. Depois, ela meteu uma cuia na bacia: ela queria pegar o breu e jogá-lo nas costas deles. Mas o breu, em vez de aumentar de volume como haviam explicado os Diroá (Gente-Sangue), endureceu, ficando duro como uma barra. A velha não podia mais lutar contra os Diroá (Gente-Sangue). Os Diroá (Gente-Sangue) levaram então os gaviões para fora da maloca e os jogaram contra o teto do universo. Eles retomaram já morto para a terra. Vendo-os mortos, os Diroá (Gente-Sangue) se despediram da velha avó, levando consigo os gaviões no espaço. Chorando, a avó Mucura pediu que lhe deixassem, ao menos, uma pena, mas eles lhe jogaram a menor pena de todas. Com essa pena, ela conseguiu criar vários tipos de gaviões, mas todos muito pequenos. Nunca chegou a recriar gaviões do tamanho dos seus netos mortos.  Os Diroá (Gente-Sangue) chegaram à casa da velha avó de Inambu-rei, entregando-lhe os ossos do seu neto e também os restos mortais dos dois gaviões. A avó agradeceu muito o serviço prestado. 
Aqui e assim que termina a história do ÃHGÃ DEYË ĨGË WOA (O Inambu-Rei e Mucura. “E a vingança dos Diroá (Gente-Sangue), que o meu pai Diakaru Kumũ contava sobre história dos grandes homens desconhecido do ser vivo do universo”.  
 
 *Jaime Moura Fernandes é da Etnia Desana, graduando do curso de Licenciatura Indígena da Universidade do Estado do Amazonas - UEA e, colaborador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena - NEAI.