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Prezadas/os,

é com satisfação e alegria que divulgamos e repercutimos a defesa de doutorado ocorrida no Museu Nacional de Rio de Janeiro do nosso querido colega e pesquisador do NEAI, Miguel Aparicio:

 

defesa MN 8 fev 2019

 

 A relação banawá. Socialidade e transformação nos Arawá do Purus.

Tese (Doutorado em Antropologia Social), Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2019.

 

Banca Examinadora: Eduardo Viveiros de Castro (orientador); Aparecida Vilaça (PPGAS Museu Nacional), Luisa Elvira Belaunde (PPGAS Museu Nacional); Marta Amoroso (PPGAS, USP); Oiara Bonilla (UFF). Suplentes: Carlos Fausto (PPGAS Museu Nacional); Luiz Costa (PPGSA, UFRJ).

Data: 8 de fevereiro de 2019

  

festa banawa Sete Setembro

 

RESUMO

 

Desconfiando das dicotomias convencionais entre povos indígenas “tradicionais” e “aculturados”, esta etnografia dirige sua atenção aos itinerários do parentesco vividos pelos Banawá, falantes de uma língua Arawá que habitam no interflúvio Purus-Juruá, na Amazônia ocidental. O foco da análise se dirige às suas relações, concebidas como conexões e como narrações que emergem no processo de construção da vida coletiva. A socialidade banawá, e a inspiração da sua mitopoiética, revelam um peculiar cromatismo que perpassa as dinâmicas de formação de coletivos e que estende a vida dos “humanos-verdadeiros” a movimentos instáveis de interação com sujeitos heterogêneos em um mundo perigoso. Com o contraponto do xamanismo, que põe em evidência o caráter heterotópico de algumas conexões, e com sua criatividade ritual, os Banawá manifestam, na sua condição de “misturados”, a força transformacional de um campo de relações que não consegue ser descrito em termos de “sociedade” ou de “cultura”. A pesquisa quer contribuir, em diálogo com outras etnografias, ao avanço promovido pelos recentes estudos sobre os povos Arawá do vale do rio Purus.

 

DA INTRODUÇÃO DA TESE

 

Quero destacar, como dissonância constante ao longo do itinerário do doutorado, o clima adverso que viveram as instituições científicas, com o crescente sufocamento das condições de pesquisa, e, mais gravemente ainda, as incessantes manobras de ataque empreendidas contra os povos indígenas no Brasil. O incêndio do Museu Nacional, que me surpreendeu durante a elaboração dos últimos capítulos da tese, é talvez o símbolo mais contundente dos tempos que vivemos. Apropriando-nos das palavras de Isabelle Stengers, é possível dizer que o Museu Nacional em chamas nos fez sentir que “vivemos em um verdadeiro cemitério de práticas e saberes coletivos destruídos” e que, em contrapartida, “qualquer criação deve incorporar o saber de que ela não se arrisca em um mundo amigo, e sim em um meio doentio” (Stengers, 2015, p. 98). Nesse ambiente, ao apresentar esta etnografia, ressoam as palavras de Ailton Krenak: “Somos índios, resistimos há 500 anos. Fico preocupado é se os brancos vão resistir”.