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Nota de pesar: Homenagem a Ely Macuxi

  • Publicado: Sexta, 22 de Janeiro de 2021, 07h10
  • Última atualização em Terça, 26 de Janeiro de 2021, 09h00

Parafraseando sobre amigo e colega Ely Macuxi

 Justino Sarmento Rezende[1]

 

Nos anos 1984 éramos estudantes de Filosofia,

Filosofia grega, nos passos iniciais,

Para tornarmos Amigos da Sabedoria,

Era no CENESCH,

Centro de Estudos do Comportamento Humano – Manaus.

Éramos muitos seminaristas!

E, você Ely era também, quis ser missionário Consolata!

Pelo seu conhecimento aos missionários Consolatas em Roraima.

Como muitos jovens seminaristas,

Você também deixou a vida de Seminário,

Seguia sua trajetória nesse mundo de Manaus,

Que não era tão grande como hoje!

Você vivia contando, como se fosse uma piada,

Que lhe deram uma vaga numa escola,

Para dar aula de ensino religioso,

E, contava que passava fome,

E, você contava com orgulho,

De que você e outros inventavam de jogar futebol

Com os seminaristas salesianos,

Pois, dizia que eu conseguia comida para você se alimentar,

Assim você seguiu a sua trajetória em construção do educador-professor.

Com os sonhos de melhorar na vida você e o nosso amigo Daniel Munduruku

Foram para Lorena-SP.

Na busca de afirmação de alteridade,

Visibilizaram e falaram do nosso ser originário brasileiro,

Afirmaram-se como Ely Macuxi e Daniel Munduruku.

Eu continuei no Amazonas, entre os povos do alto rio Negro,

Também inserido com o Movimento Indígena.

Depois de vários anos encontramo-nos em Manaus.

Você já era professor da Seduc, professor formador no Magistério,

Membro do Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena,

Era filhado ao Partido dos Trabalhadores (AM),

Você aguerrido e sonhador de que muitas coisas poderiam mudar para melhor,

Mas você não ganhava nas eleições e não desistia.

Lembro-me bem de sua frase: Justino, eu não quero mais saber disso!

Mas lá estava metido novamente,

Sua vontade política era imensa,

Como também era exagerada sua coerência, “falava verdade demais”.

O seu compromisso com os povos indígenas e o Movimento Indígena era de se admirar,

Mesmo quando as lideranças que você ajudava lhe deixavam de lado,

Sentia muita dificuldade para largá-los e sempre voltava a ajudar.

Largava o trabalho e o escritório para buscar os indígenas que chegavam à capital.

E, por que não dizer: tirava o dinheiro de seu bolso para lhes ajudar.

Com razão, a sua esposa (Teresinha) ficava com raiva,

Pois ela é também professora como você, lutadora como você.

Ely Macuxi, você foi um orador, bom para falar,

Qualquer tema que lhe propusessem.

Por isso, muitas vezes falava coisa que não tinha nada a ver com o tema.

Eu brincava sobre isso com você.

Eu entendo a razão de você se dar bem em eventos grandes, eventos populares,

Lugares onde se faz um bate papo livre, solto, sem citar os autores, sem utilizar os teóricos.

Você escreveu livros, é reconhecido nesse Brasil como poeta e escritor.

Nesse campo também você sempre quis que eu fosse um escritor e poeta.

Eram desejos e sonhos.

Participamos de vários encontros de escritores indígenas na cidade do Rio de Janeiro e São Paulo,

Você conhecia muitos escritores e escritoras indígenas,

Batia papo gostoso e achavam graça,

Num clima vivido entre os parentes de todo o Brasil,

Foram ambientes e climas misturados de sonhos, ideais, poesias, bebidas, danças e rituais.

Vocês me metiam ali dentro como se eu fosse também um poeta e escritor kkkk

Em meio a vocês me sentia poeta mesmo! rsrs

Ely Macuxi, você tinha uma grande humanidade, fraternidade, amizade,

A disponibilidade era imensa,

Ai entra a história de seu carro,

Já usado, mas cabíamos todos nós seus parentes e colegas,

Você dizia: não olhem para o carro que está velho, mas vou comprar um novo para nós.

Depois de muitos anos voltei a estudar na UFAM,

Ingressei-me no doutorado em Antropologia Social em 2017,

E, você Ely ingressava no Mestrado no mesmo PPGAS.

Retomamos nossas atitudes de estudantes,

Sonhadores, mas também comprometidos com as exigências da Sociedade, da Educação,

Cursos aqui e ali,

Eu viajava para ajudar na Licenciatura Indígena e assessorar no Sínodo da Amazônia.

Embora não estando presente em todas as aulas,

Eu vivia lhe dizendo: Ely, como está o seu trabalho de mestrado?

E, você dizia: Justino, me ajude! Eu não consigo escrever!

Eu brincava com você, Ely: Ely, Ely não vá perder o prazo para a qualificação e defesa!

Você sonhava muito e muito mesmo com esse título,

Pois lhe ajudaria na sua carreira de professor e aposentadoria!

Como eu torcia para que você defendesse o seu mestrado.

Do nada surgia a pandemia Covid-19.

Chegou a Manaus, chegou a todos os lugares.

Eu fiquei doente em 2020.

Lembro-me bem que enquanto eu estava doente, você disse:

Justino, dá para você ler o meu trabalho!

Eu disse: Ely, eu estou muito mal, não consigo nem fazer o meu trabalho.

Passamos ano inteiro em meio a Covid-19.

Veio a segunda onda, ano 2021.

Eu estando na aldeia junto aos meus irmãos, mandei uma mensagem,

Pedindo-lhe uma informação.

Assustei-me quando depois de alguns dias veio a resposta:

Estou internado com a Covid-19.

Dizia estar melhorando e era bem atendido no hospital.

De repente veio a notícia de que menos se espera: sua partida desse nosso patamar.

É Ely, você deixou muitas sementes de sonhos plantadas

Nos corações de muitas pessoas,

Quem lhe conheceu,

Participou de sua alegria, entusiasmo, dinamismo, da coragem.

Em mim ressoa ainda, do que você falava de seu neto: meu neto sempre me diz: índio, Macuxi.

Ele sempre considerou o seu avô de índio, Macuxi.

É assim que você será lembrado.

Brilhe junto às constelações,

Mas esteja também em nossas cerimônias,

De cantos, danças e caxiri,

Para fermentação contínua de nossos ideais nesse patamar,

Sentirmos embriagados pelas suas ideais.

Descanse em paz,

Mas também esteja presente em nossos trabalhos.

 

[1] Do povo Tuyuka. Doutorando em Antropologia Social/PPGAS/UFAM. Membro do NEAI/UFAM. Bolsista FAPEAM.

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